1760-1769

  Thomaz de Araújo Pereira nasceu em Acari, no coração áspero e formador do Seridó potiguar, no ano de 1765, e ali mesmo encerrou sua trajetória em 1847, profundamente enraizado na terra, nos costumes e nas relações humanas que moldaram a vida sertaneja. Sua existência confundiu-se com a própria história da região, não apenas pelo tempo em que viveu, mas pela densidade simbólica de sua atuação e pela herança moral que legou às gerações seguintes. Filho de Thomaz de Araújo Pereira Filho e de Tereza de Jesus Medeiros Rocha, veio ao mundo já inserido em uma família antiga, cujas origens remontavam aos primeiros movimentos de ocupação do sertão e cuja presença se estendia pelos domínios da terra, da política local e da administração pública, compondo um capital simbólico forjado na autoridade, no prestígio e na observância rigorosa dos valores patriarcais próprios da cultura sertaneja.

A genealogia que o sustentava projetava-se para além de seus pais. Seu avô paterno, também chamado Thomaz de Araújo Pereira, português natural de Viana do Minho, nascido em 1701 e falecido em 1781, exercera o comando da Ribeira do Seridó e, ao casar-se com Maria da Conceição de Mendonça, lançara os alicerces de uma das linhagens mais influentes da região. Seu pai, o Sargento-Mor Thomaz de Araújo Pereira, nascido em 1735 e falecido em 1799, unira-se a Thereza de Jesus Maria, filha do Tenente Rodrigo de Medeiros Rocha, entrelaçando dois troncos familiares de grande peso histórico no sertão potiguar. Pesquisas genealógicas contemporâneas acrescentam ainda uma dimensão reveladora a essa ascendência ao identificarem, na família Medeiros do Seridó, traços de origem judaica provenientes da Ilha de São Miguel, nos Açores, evidenciando a complexidade étnica e cultural que compôs as elites sertanejas, muito além das narrativas simplificadas do passado colonial.

Dessa linhagem extensa e vigorosa descenderam figuras que deixariam marcas profundas na história regional, como Teresa Alexandrina de Jesus, o Coronel João Damasceno Pereira de Araújo, conhecido como “Bode Preto”, o Padre Tomás e Aninha do Ingá, personagens que, em diferentes esferas — política, religiosa e social —, prolongaram a influência familiar e consolidaram sua presença no tecido histórico do Seridó.

Forjado em um ambiente onde a sobrevivência exigia firmeza e clareza de comando, Thomaz de Araújo Pereira aprendeu desde cedo que a ordem não se suplica e a autoridade não se oferece: conquista-se. O sertão que o moldou, vasto, seco e imprevisível, onde a vida se equilibrava entre a escassez e a resistência, ensinou-lhe uma lógica própria, na qual disciplina e rigor não eram virtudes abstratas, mas instrumentos concretos de preservação da vida e da comunidade. Não foi homem de letras nem de gabinetes, mas de prática e observação, conhecedor do trato com os homens e com o gado, atento aos silêncios, aos gestos e às reações que revelam mais do que longos discursos. Sabia ler a alma humana com a mesma precisão com que decifrava os sinais da terra, e essa inteligência intuitiva seria decisiva em sua trajetória pública.

No alvorecer do Brasil Império, quando o Rio Grande do Norte se debatia entre o caos político e a fragmentação institucional, o nome de Thomaz de Araújo Pereira emergiu como solução possível para um cenário de instabilidade. Após a Revolução de 1817, a Província mergulhara em rivalidades, intrigas e governos frágeis, incapazes de impor coesão ou garantir a ordem. Facções se enfrentavam, a Câmara de Natal tornara-se palco de disputas estéreis, e o povo permanecia à mercê da insegurança e do medo. Foi nesse terreno instável que o Império, atento à necessidade de um comando firme, identificou no velho capitão sertanejo, monarquista convicto e homem de reputação austera, a figura capaz de impor disciplina onde reinava a desordem.

Em 25 de novembro de 1823, já sob o reinado de Dom Pedro I, Thomaz de Araújo Pereira foi nomeado, por Carta Imperial, o primeiro Presidente da Província do Rio Grande do Norte. A posse, entretanto, somente ocorreu em 5 de maio de 1824, retardada tanto pelos graves problemas de saúde que o afligiam — encontrava-se quase completamente cego — quanto pela percepção, correta, de um ambiente político hostil e instável na capital provincial. Ainda assim, assumiu o cargo consciente do peso da missão e das limitações que o cercavam, mas com a mente lúcida e a experiência de quem aprendera a antecipar movimentos e a compreender homens como quem joga xadrez em silêncio.

Seu governo foi breve, estendendo-se por apenas quatro meses, até 8 de setembro de 1824, mas transcorreu em um dos períodos mais conturbados da história nordestina, marcado pela eclosão da Confederação do Equador e por tensões sociais profundas. A administração de Thomaz foi marcada por um estilo rígido e disciplinador, coerente com sua formação e com a mentalidade patriarcal sertaneja. Organizou a artilharia, impôs normas severas de conduta e determinou que soldados fossem empregados na lavoura, não apenas como forma de disciplina, mas para garantir o abastecimento da população em tempos difíceis.

Entre as medidas mais controversas estiveram as imposições de trabalho compulsório em Natal. Meretrizes foram obrigadas a fiar diariamente, sob ameaça de castigos físicos caso não entregassem os novelos exigidos, enquanto mulheres indígenas da vila de Extremoz foram constrangidas à mesma tarefa e os homens da comunidade compelidos à pesca para suprir a capital. Tais decisões provocaram forte reação social e quase conduziram a um confronto aberto, a ponto de os indígenas ameaçarem marchar sobre Natal para depor o Presidente da Província. Isolado politicamente e sem o apoio efetivo das lideranças civis e militares, Thomaz foi forçado a renunciar, transferindo o governo ao Presidente do Senado da Câmara.

Apesar do rigor que caracterizou sua administração, revelou também capacidade de mediação. Em meio aos distúrbios que abalaram Natal, conseguiu evitar um confronto direto entre tropas regulares e voluntários rebelados, poupando vidas e impedindo um derramamento de sangue que teria agravado ainda mais a crise provincial. Após a renúncia, sentindo-se ameaçado, protagonizou um episódio que se tornaria lendário na memória regional: para deixar Natal em segurança e regressar ao Seridó, ocultou-se dentro de um barril, transportado por seu escravo fiel, conhecido como Pai Benguela, até alcançar sua fazenda no interior. Ali, redigiu uma longa defesa endereçada ao Imperador, na qual negava veementemente qualquer envolvimento com a Confederação do Equador, afirmando que sua missão fora preservar aquela parcela do povo que lhe fora confiada, mantendo-a afastada das intrigas e da guerra civil.

Se o exercício do poder executivo revelou equívocos e contradições, sua reputação pessoal consolidou-se como quase mítica no imaginário sertanejo. Sua palavra era considerada inviolável, e inúmeros episódios preservados pela tradição oral confirmam essa fama. Mesmo enfermo, deixou-se transportar em rede do Acari até Brejo de Areia apenas para cumprir a promessa de comparecer a um batizado na data combinada. Como tutor dos filhos da viúva Dona Maria do Ó de Farias, mantinha o compromisso anual de prestar contas em Açu e, certa vez, em meio a um inverno rigoroso e com o rio transbordado, surpreendeu a todos ao chegar durante a noite, guiado por tochas, apenas para não faltar à palavra empenhada.

Já idoso e completamente cego, chamou o neto, o Padre Tomás de Araújo Pereira, para confessar-se. O sacerdote, lembrando-se de ter sido punido na juventude pelo avô com o confinamento na cafua, a pequena prisão doméstica, impôs-lhe como penitência permanecer por dez minutos naquele mesmo espaço. Thomaz cumpriu a penitência sem resistência e, ao sair, ordenou que a cafua fosse demolida, encerrando simbolicamente um ciclo de rigor disciplinar que marcara sua vida.

A materialidade de seu legado atravessou gerações. Uma espada e uma bengala de madeira com cabo de prata passaram às mãos do neto, o Coronel João Damasceno Pereira de Araújo, o “Bode Preto”. A bengala percorreu sucessivas gerações até ser preservada como objeto histórico, integrando-se, por fim, ao acervo do Museu do Sertanejo, em Acari, como testemunho concreto de uma trajetória que se confunde com a própria formação do Seridó.

Assim, Thomaz de Araújo Pereira permanece na história não como um governante bem-sucedido sob critérios administrativos modernos, mas como a encarnação de um ideal sertanejo de honra, disciplina e fidelidade à palavra dada. Sua vida, marcada por luzes e sombras, revela um homem moldado pelos valores de seu tempo e de sua terra, cuja memória persiste como parte indissociável da identidade histórica e cultural do Rio Grande do Norte, exemplo de como o sertão forma homens e, por vezes, como certos homens conseguem, ainda que por breve espaço de tempo, imprimir sua marca no destino de uma província inteira.

 Capitão Tomás de ARAÚJO PEREIRA (1765-1847), filho de Tomaz de Araújo Pereira Filho e de Tereza de Jesus Medeiros Rocha, era neto do colonizador português Tomaz de Araújo Pereira e do açoriano Rodrigo de Medeiros Rocha. Terceiro a ostentar o nome na linhagem familiar, nasceu em Acari no ano de 1765. Oriundo de uma das famílias pioneiras do Seridó, cujo poderio econômico consolidou-se na pecuária, Tomás emergiu como figura de proeminência política e social. Em 1824, assumiu a presidência da Província do Rio Grande do Norte, tornando-se o primeiro seridoense a governar o estado. Sua gestão, compreendida entre 5 de maio e 8 de setembro, transcorreu sob a égide da turbulência política deflagrada pela Confederação do Equador. A imagem histórica de Tomás é complexa e matizada: segundo os relatos de Jayme da Nóbrega Santa Rosa, era um homem alto, de olhos azuis, madrugador e generoso, senhor de vastas extensões rurais. Contrariando o mito popular de que seria desprovido de letras, Santa Rosa assevera que Tomás possuía "regular instrução" e mantinha profusa correspondência. Sua capacidade intelectual manifestava-se no hábito de ditar cartas simultaneamente a diversos secretários, revelando notável organização e um saber haurido na leitura de livros. Monarquista convicto, sua postura foi, por vezes, erroneamente interpretada como hesitação por alguns historiadores; contudo, a análise de seus atos revela um estrategista astuto que logrou evitar o derramamento de sangue em solo potiguar. Em um período de exaltação revolucionária, propôs e garantiu a paz, impedindo que os conflitos da Confederação do Equador assolassem a província, atitude que considerava mais nobre do que o triunfo de qualquer facção. Administrou o Estado com a mesma firmeza pragmática que empregava em suas fazendas: designou soldados para o labor agrícola e determinou que as mulheres se dedicassem à fiação de algodão, medida que visava, simultaneamente, à produção e à moralização social. Sua honestidade era incontrastável, fiscalizando pessoalmente o erário para coibir abusos. Ao concluir seu governo, sob o fracasso do movimento confederado, enfrentou sérios riscos à vida. No perigoso retorno a Acari, teria se ocultado em um barril transportado pelo fiel escravo "Pai Banguela". Já em seu reduto, redigiu sua defesa para esclarecer sua atuação nos fatos políticos da época. Na ancianidade, quase cego, manifestou o desejo de confessar-se ao neto, o Vigário Thomás Pereira de Araújo. Ante a relutância do jovem clérigo, o patriarca insistiu. Como penitência, o neto ordenou que o avô permanecesse por meia hora na "cafua" — pequeno cubículo que o próprio Tomás utilizava para punir familiares e escravos. Cumprida a penitência com humildade, o patriarca ordenou a demolição do cárcere. Tomás de Araújo Pereira faleceu em 1847. Seu legado é o de um líder de temperamento rigoroso, mas dotado de rara astúcia e bom senso, que soube navegar as tormentas do Primeiro Reinado com a firmeza do sertanejo e a habilidade de um diplomata.

 

 Manoel Antônio Dantas Corrêa, nasceu em 1769, falecido em 1853, e sua esposa, Maria José de Medeiros Valcácer Segunda (conhecida como "Babanca"), falecida em 1856, formavam um casal com profundas raízes na região. Ele era filho de Caetano Dantas Corrêa e de Josefa de Araújo Pereira, que por sua vez era filha de Thomaz de Araújo Pereira. Já Maria José de Medeiros era filha de Manoel Álvares da Nóbrega I e de Maria José de Medeiros I. Cel. Manoel Antônio Dantas Correia foi prefeito de Caicó em 1829-1833, e prefeito de Acari de 1837-1840.

A análise dos costumes, das práticas alimentares e da cultura material do Seridó, fundamentada sobretudo em inventários históricos e nas crônicas de Manoel Antônio Dantas Corrêa, revela uma sociedade sertaneja forjada pela adaptação contínua ao meio hostil e pela resiliência diante das secas cíclicas que marcavam o ritmo da vida regional. 

A subsistência cotidiana assentava-se em uma base alimentar simples e profundamente enraizada no ambiente, na qual a farinha de mandioca se evidenciava como elemento central, possivelmente o mais consumido em todo o Seridó, acompanhada por cereais como o milho, preparado das mais diversas maneiras, e pelo feijão macassar ou feijão-de-corda. 

Frutas e legumes completavam essa dieta nos anos de melhor inverno, com registros de abundância de maxixe, melancia, melão e jerimum, sendo a melancia, em determinados períodos de estiagem, verdadeiro sustento exclusivo de famílias inteiras, que chegavam a misturar a polpa com a massa da semente para prolongar seu aproveitamento. 

As cabaças, por sua vez, eram cultivadas não apenas como alimento, mas sobretudo para a confecção de cuias indispensáveis ao cotidiano doméstico. Nos anos de seca severa, entretanto, a dieta sofria transformações drásticas, e a população recorria a recursos extremos para sobreviver. Plantas agrestes como o xique-xique, cujo miolo servia de sustento, a macambira, o macanaú e o guianão, extraídas com esforço e engenho, tornavam-se alimentos de emergência, preparados em massas e gomas muitas vezes misturadas ao leite de cabra. 

Em situações de fome aguda, a luta pela vida levava ao consumo de couros crus ou torrados e de ossos de gado secos e reduzidos a uma espécie de massa, imagens eloquentes de uma existência constantemente ameaçada pela escassez. Sendo o Seridó região de criatório, o consumo de carnes bovina, caprina e ovina era relativamente comum nos anos favoráveis, com destaque para a produção de carne-de-sol e de linguiças, enquanto a caça de aves, especialmente da pomba-rola, assumia papel crucial em tempos difíceis, a ponto de se registrar capturas em número extraordinário. 

Os rios forneciam peixes como a curimatã e a traíra, e há relatos dramáticos de épocas em que, diante da fome extrema, redes de dormir foram transformadas em instrumentos de pesca para capturar peixes tão magros que mal conservavam carne sobre a espinha. O peixe seco, além disso, integrava circuitos de troca com regiões vizinhas, como o Brejo paraibano. 

Outros produtos essenciais completavam esse universo alimentar, como a rapadura, amplamente consumida e obtida em feiras e comboios vindos do Brejo e do Cariri, o açúcar em suas diversas formas, o mel de engenho e os doces caseiros preparados em utensílios específicos, como as bacias de cobre mencionadas nos inventários. 

O leite de vaca e de cabra, consumido in natura ou transformado em queijos de manteiga e de coalho, assim como a manteiga de garrafa, compunham a base láctea da alimentação, ao passo que o mel silvestre e a cera de abelha figuravam como recursos valiosos, especialmente em períodos de penúria. O sal, indispensável à conservação das carnes, era obtido em viagens anuais às salinas e integrava um sistema de trocas que conectava o Seridó a outras regiões do Nordeste. 

As bebidas também aparecem nos registros, com o vinho, consumido em contextos específicos, e a aguardente de cana, produzida nos engenhos e amplamente difundida. O vestuário refletia com clareza a estratificação social e as influências externas, sendo confeccionado com uma grande variedade de tecidos, desde os mais grosseiros, como o algodãozinho e a baeta, até materiais finos e importados, como seda, linho, veludo e tafetá. 

No traje masculino de caráter cerimonial predominavam, no período colonial, a casaca, a véstia e os calções, peças de alto custo e forte carga simbólica, progressivamente substituídas, a partir do século XIX, por calças compridas, jaquetas, sobrecasacas e coletes, em consonância com a moda europeia. 

O vestuário cotidiano, mais simples, compunha-se basicamente de ceroulas e camisas longas, usadas por fora, enquanto os chapéus variavam conforme a condição social, desde os finos, de pelo e galões, até os de baeta e o onipresente chapéu de couro, inseparável da lida seridoense. 

A indumentária feminina aparece de modo lacunar nas fontes, mas as poucas referências indicam vestidos de sarja ou seda, mantos, capotes e saias, compondo um guarda-roupa menos documentado, porém igualmente marcado pela distinção social. Os calçados citados restringem-se, em geral, a chinelas rasas ou de salto baixo, embora haja registros da produção de sapatos, botas e borzeguins em couro de cabra, veado e cordovão. 

A cultura material, revelada pelos inventários, permite ainda entrever o cotidiano doméstico e os hábitos pessoais, com objetos como caixas de rapé de flandres ou chifre, cornimboques ornamentados de prata, navalhas de barbear, frascos de água de cheiro e bengalas guarnecidas de tartaruga, ouro ou prata, símbolos discretos de distinção. 

A presença tardia de papel, cadernos e livros, bem como de itens como canivetes, óculos de bronze, canetas e botas guarda-lama, assinala a lenta incorporação de novidades tecnológicas ao longo do século XIX. 

No espaço doméstico, as roupas de cama e de mesa compunham um patrimônio significativo, com colchas, cobertas, lençóis e toalhas confeccionados em diversos tecidos, algumas peças de elevado valor, como colchas lavradas em ouro, e outras de uso cotidiano, como redes de algodão, indispensáveis ao descanso e à vida local. 

Desse modo, o conjunto desses alimentos, vestes e objetos desenha um retrato denso e vívido do Seridó dos séculos XVIII e XIX, revelando uma sociedade marcada pela engenhosidade, pela sobriedade e pela permanente tensão entre escassez e abundância, onde cada prática cotidiana era expressão direta da luta pela sobrevivência e da adaptação às condições rigorosas do sertão.

 LUZIA MARIA DO ESPÍRITO SANTO (1768/1810) . Nasceu em Santa Luzia/PB. Esposa de Caetano Dantas Correia Filho (1759/1840) que era filho de Caetano Dantas Correia e Josefa de Araújo Pereira.




Antônia Maria dos Santos, por vezes identificada pelo sobrenome Encarnação, uniu-se em matrimônio, aos vinte e dois dias de outubro de 1790, a Bartholomeu dos Santos, súdito português e natural da freguesia de Santa Maria de Lourdes, no Patriarcado de Lisboa. Nascido por volta de 1764, filho de Antônio dos Santos e Quitéria Maria, Bartholomeu consolidou-se como figura de proeminência cívica e econômica na Capitania do Rio Grande. Conforme registros apresentados por Daniel Duarte à Câmara Municipal do Caicó, ele figurou entre os primeiros vereadores da Vila Nova do Príncipe, exercendo ainda o cargo de administrador da referida Vila no ano de 1807. Homem de posses e prestígio, Bartholomeu era capitão e fazendeiro abastado, senhor de um plantel de duzentas vacas — cifra vultosa para o período —, cujo inventário, processado em 1815, acusou um monte-mor de quatro contos e quinhentos mil réis.

O destino do capitão Bartholomeu, contudo, foi selado por um trágico evento de violência; já viúvo, foi morto a pancadas de bordão na Fazenda das Lages, aos dezesseis dias de setembro de 1814, contando então cinquenta anos de idade. Seus restos mortais foram sepultados na Matriz do Seridó, de "Cruzeiro a Sima", sob as encomendas do vigário Francisco de Brito Guerra. Segundo a tradição preservada por José Simplício Batista e ratificada por Petronilo Clemente dos Santos, o "Petrônio da Volta do Rio", as linhagens dos Clemente dos Santos e Clemente Teixeira derivam do único rebento deste casal, o qual teria se deslocado para as terras brejeiras da Paraíba, especificamente na região de Bananeiras, personificado na figura de José Clemente Teixeira.

Este único herdeiro, Domingos Clemente dos Santos, recebeu as bênçãos nupciais em quatro de agosto de 1814, na Fazenda Angicos, ao consorciar-se com Ana Maria da Fonseca, diletante filha de Domingos Alves do Nascimento e Maria Teixeira. O enlace, realizado sob dispensa de consanguinidade in facie Ecclesiae, contou com a presença do padre Manoel Teixeira da Fonseca e das testemunhas João Alves Gameiro e Francisco de Souza Marques. Esta união não apenas assegurou a continuidade da estirpe, mas também selou alianças estratégicas entre os abastados troncos familiares que orlavam os rios e vales entre o Seridó potiguar e o Brejo paraibano.



Joana Batista de Araújo, conhecida pelo apelido de Joana Cotó, foi descrita por seu descendente Alcindo de Medeiros Leite como “mulher baixa, loquaz e meio andeja”. Contraiu matrimônio com o português José Simões dos Santos, nascido por volta de 1760, cujo termo de óbito se encontra registrado em um dos livros da matriz de Sant’Ana, em Caicó. Consta no referido assento que, aos oito dias do mês de janeiro de mil oitocentos e trinta e um, naquela matriz, em grau acima, foi sepultado o cadáver de José Simões dos Santos, casado com Joana Batista de Araújo, falecido com todos os sacramentos, aos setenta anos de idade, envolto em hábito branco, tendo sido encomendado pelo reverendo coadjutor Manoel José Fernandes, sendo o termo lavrado e assinado pelo vigário Francisco de Brito Guerra.

Segundo dados publicados pelo genealogista patoense Manoel Henrique da Silva, conhecido como Né Marinho, o português José Simões dos Santos foi encontrado em território do Piauí, ainda na adolescência e em condição errante, por Sebastião de Medeiros Rocha Júnior, comprador de bois, que, reconhecendo nele certa aptidão para o trato do gado, convidou-o a acompanhá-lo, convite que foi prontamente aceito. Ao retornar à sua fazenda denominada Cachoeira, situada no atual município de Santa Luzia do Sabugi, no Estado da Paraíba, localizada cerca de duas léguas ao norte da cidade, às margens do rio Quipauá, ali concluiu a criação do jovem.

Prossegue Né Marinho relatando que, iniciado o namoro entre José Simões e Joana Batista, o fato chegou ao conhecimento das companheiras de Joana Cotó, que a censuravam, indagando como poderia ela casar-se com um rapaz que sequer possuía uma calça. A resposta de Joana foi imediata e resoluta, afirmando que tal detalhe não constituía obstáculo, pois, ao chegar em casa, fiaria algodão crioulo que ali possuía e o mandaria tecer no Barbosa de Baixo, confeccionando, em seguida, uma calça para o noivo, de modo que pudessem se casar. Assim ocorreu, estabelecendo o casal sua morada no sítio do pai adotivo de José Simões, onde ainda subsistem vestígios da antiga habitação, como fragmentos de tijolos, telhas e cacos de louça inglesa.

Registra-se, por fim, que, conforme consta de antigo livro da Irmandade das Almas de Caicó, José Simões dos Santos foi eleito Irmão de Mesa dessa confraria nos anos de 1795 e 1803, evidenciando sua inserção e prestígio no seio da comunidade local.


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Ana Dantas Pereira, nascida por volta de 1764, contraiu matrimônio com Antônio Tomaz de Azevedo, estabelecendo residência na fazenda Cacimba do Meio, situada no termo do Acari, na freguesia do Seridó. Seu falecimento ocorreu aos vinte e oito dias do mês de novembro de mil oitocentos e vinte e dois, conforme assento lavrado na Capela do Acari, filial da matriz, registrando-se que morreu em consequência de moléstias uterinas, tendo recebido todos os sacramentos, aos cinquenta e oito anos de idade. À época de seu óbito, era casada com Antônio Tomaz de Azevedo, morador da referida freguesia, tendo sido seu corpo devidamente encomendado pelo Padre Manoel Teixeira da Fonseca, de licença do vigário Francisco de Brito Guerra, que subscreveu o registro.

Do casal houve, ao menos, uma filha conhecida, Maria, falecida ainda na infância. Segundo o respectivo assento paroquial, aos onze dias do mês de janeiro de mil setecentos e noventa, na Capela do Acari, deu-se sepultura eclesiástica à parvulazinha Maria, com cerca de três meses de idade, filha legítima de Antônio Tomaz de Azevedo e de Dona Ana de Araújo Pereira, moradores na mesma freguesia do Seridó. O corpo foi envolto em seda azul, encomendado pelo Reverendo Manoel Gomes de Azevedo e sepultado no cruzeiro da referida capela, conforme termo assinado pelo Cura José Antônio Caetano de Mesquita.

Relaciona-se ainda a esta linhagem Manoel Gomes da Silva, que veio a casar-se com Joaquina Senhorinha da Conceição, identificada neste capítulo sob a referência BN 147, filha de Francisco Gomes da Silva e de Maria Joaquina dos Santos Dantas, integrando assim o conjunto de alianças familiares que consolidaram a rede de parentesco e ocupação territorial no Seridó oitocentista.


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Bartolomeu da Costa Pereira nasceu na fazenda Caiçara, situada no atual município paraibano de Barra de Santa Rosa, então pertencente à freguesia de Mamanguape, aos sete dias do mês de abril de mil setecentos e sessenta e seis. Fixou residência em sua fazenda Serrinha, localizada no território do Brejo de Areia, atualmente integrante do município de Remígio, no estado da Paraíba. No ano de 1788 encontrava-se solteiro, já tendo falecido seu pai, Antônio Pais de Bulhões. Na vila de Areia possuía casa de morada, situada na atual praça Pedro Américo. Contraiu matrimônio em primeiras núpcias com Maria do Nascimento de Albuquerque, natural de Goiana, em Pernambuco, filha de Manoel de Carvalho Fialho e Mioaéla Garcia Soares, casamento celebrado no ano de 1794. Em segundas núpcias, casou-se com sua sobrinha Teresa de Jesus Maria, classificada sob a referência TN 165 no capítulo da descendência de Pedro Ferreira das Neves, filha de Caetano Camelo Pereira e Clara Maria dos Reis, sendo este segundo enlace matrimonial realizado no ano de 1814.

Segundo antigos registros da Irmandade das Almas do Caicó, dona Maria do Nascimento, no ano de 1799, foi eleita Irmã de Mesa da referida confraria e, em 1812, exerceu o cargo de Juíza por eleição. As mesmas fontes informam que Teresa de Jesus Maria, no ano de 1825, foi eleita Irmã de Mesa, sendo posteriormente reeleita nos anos de 1835 e 1844.

A exemplo de seu pai, Bartolomeu da Costa Pereira requereu sesmaria na então Capitania da Paraíba, conforme referência feita por Lira Tavares, segundo a qual Joaquim Nunes Freire e Bartolomeu da Costa Pereira, moradores no Brejo de Areia, declaravam ter conhecimento da existência de terras devolutas no termo da vila de São Miguel, no sertão do Curimataú, no local denominado Olho d’Água do Palhares, requerendo, por isso, a concessão de sesmaria com três léguas de comprimento e uma de largura, ou conforme melhor conviesse, tomando como ponto inicial o referido Olho d’Água do Palhares, confrontando-se, pelo poente, com os providos do Japi, pelo nascente, com terras da serra do Damdão, pelo norte, com terras do Praturá, e pelo sul, com terras do Bom Bocadinho, observadas as condições estabelecidas nas ordens régias. A concessão foi efetivada durante o governo de Thomaz de Souza Mafra, conforme consta da sesmaria número 1.125, datada de dez de março de mil oitocentos e dezoito.

Bartolomeu da Costa Pereira faleceu no ano de 1829. O autor Horácio de Almeida tece considerações relevantes acerca de sua atuação e de sua importância histórica, destacando que o povoado de Areia já possuía capela no local onde atualmente se ergue a matriz, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição. Tal capela, edificada em terreno doado por Bartolomeu da Costa Pereira, existia antes do ano de 1800 e, do ponto de vista arquitetônico, consistia inicialmente em um simples casarão coberto de palha, atravessado no meio da rua. Próximo a ela havia uma pequena lagoa, e, em razão desse acidente geográfico, a rua principal passou a alargar-se em forma de “V”, na direção da igreja. Segundo Horácio de Almeida, teria sido por iniciativa do vigário de Mamanguape que a capela passou por sua primeira reforma, sendo coberta de telhas por volta de 1808.

Ainda segundo o mesmo autor, a freguesia foi criada por provisão de vinte e nove de junho de mil oitocentos e treze, sob o patrocínio de Nossa Senhora da Conceição, e elevada à categoria de vila por alvará régio de dezoito de maio de mil oitocentos e quinze, recebendo o nome de Vila Real do Brejo de Areia. Horácio de Almeida observa que a nomeação de Bartolomeu da Costa Pereira como primeiro capitão-mor de Areia constituiu uma escolha acertada, por tratar-se de homem moderado, economicamente independente e integrante de tradicional família com influência política que se estendia de Goiana ao Rio Grande do Norte, estando, portanto, à altura do cargo que lhe foi confiado. Dos seus doze filhos, dois foram enviados para estudar na Europa, tendo um deles falecido antes de concluir o curso na Universidade de Coimbra, enquanto o outro ordenou-se em Roma, tornando-se o primeiro natural de Areia a diplomar-se em uma escola superior.

Apesar da soma de poderes concentrados em suas mãos, reconhece-se que Bartolomeu da Costa Pereira jamais se revelou prepotente, pautando sempre sua conduta por normas de brandura. Em mais de uma ocasião, a Câmara Municipal de Areia, sem receio de eventuais represálias, afrontou sua autoridade, inconformada com a preterição do primeiro nome da lista apresentada ao governador, em favor de quem se haviam derramado elogios em ofício dirigido à autoridade superior. Passou, então, a exigir do nomeado que realizasse, às suas próprias custas, as obras indispensáveis à sustentação da vila, a exemplo do compromisso assumido por Jorge Tôrres, que prometera edificar a casa da Câmara, a cadeia, o pelourinho e outras oficinas públicas, caso fosse nomeado para o cargo. Bartolomeu não se sentiu ofendido pelos reiterados ofícios de exigências, tampouco executou as obras reclamadas, limitando-se, a muito custo, a mandar realizar reparos na casa da cadeia, que se encontrava em estado de quase ruína, o que não lhe representava vantagem, uma vez que o referido imóvel lhe pertencia. O mesmo autor conclui afirmando que os maiores obreiros do progresso de Areia foram Bartolomeu da Costa Pereira, Francisco Jorge Tôrres, José Antônio dos Santos Leal, Manuel José da Silva, o velho, e Joaquim Gomes.

Por ocasião dos acontecimentos relacionados à Confederação do Equador, nos quais estiveram envolvidos vários familiares de Bartolomeu da Costa Pereira, este chegou a ser preso na fortaleza de Cabedelo, embora não tivesse qualquer participação direta no movimento. Homem de inclinação conservadora, os episódios revolucionários lhe causaram profundos dissabores, marcando de forma negativa seus últimos anos de vida.


Cosme Pereira da Costa, figura de proeminência na história e na crônica de costumes do Seridó, nasceu no ano de 1768 na freguesia de Mamanguape, na então província da Paraíba. Sua trajetória, marcada por uma longevidade incomum e por uma personalidade singular, findou-se aos 20 de dezembro de 1865, quando faleceu vitimado pelo reumatismo, conforme dita a tradição familiar; por sua expressiva vontade, seu corpo foi sepultado no corredor central da Igreja Matriz de Caicó, em local próximo à porta principal, pois desejava o penitente ser literalmente pisado pelo povo como forma de remissão de seus pecados.

O percurso biográfico de Cosme Pereira revela um homem de contrastes, que na juventude fora destinado à vida eclesiástica e enviado a um convento na Bahia, mas que abandonou as batinas após um pitoresco episódio envolvendo o sonambulismo simulado de um frade e o temor de ser injustamente acusado de violação de domicílio. Regressando ao seio familiar, após um período de dissipação de sua herança no Piauí e uma fase de regeneração através do ofício de carpinteiro em Jurumenha, estabeleceu-se como próspero negociante de gado e senhor de terras. Casou-se em primeiras núpcias, aos 6 de fevereiro de 1809, na Matriz do Seridó, com Maria Pereira da Cunha, filha legítima de Luís Pereira Bolcão e Antônia Maria de Jesus; após a viuvez, ocorrida entre 1824 e 1826, contraiu segunda união, em 1828, na freguesia do Icó, no Ceará, com Maria Teresa de Jesus, natural de Patos e filha de João de Morais Camelo e Antônia de Morais Severa, a qual veio a falecer em 26 de abril de 1863, aos 72 anos de idade.

Ao longo de sua existência, Cosme Pereira residiu em diversas propriedades, constando registros de sua passagem pelas fazendas Carnaúba, Cobra e, por fim, o Umari, esta última adquirida por permuta em 1821 e onde fixou sua residência definitiva, além de morar na Vila do Príncipe. Homem de estatura elevada, moreno claro e barba longa que lhe atingia a cintura, era conhecido por seus hábitos austeros e por uma inteligência arguta, manifestada em inúmeras passagens que compõem o folclore regional, desde a sua rígida moralidade em relação ao trabalho e à hospitalidade até as lições de humildade que impunha aos que o julgavam pela aparência; sua casa no Umari foi centro de uma vida movimentada, onde o rigor com as ferramentas de trabalho e a caridade silenciosa — pautada pelo preceito bíblico de que a mão esquerda não deve ver o que faz a direita — conviviam com um humor cáustico e profético. Ao atingir a provecta idade de 97 anos, Cosme Pereira da Costa deixou para a posteridade não apenas uma vasta descendência, mas o testemunho de uma era em que a honra, o trabalho e a fé se entrelaçavam de forma indissociável na formação da sociedade sertaneja.



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João Garcia de Sá Barroso, também referido nas fontes como João Garcia do Amaral, nasceu por volta do ano de 1767 e estabeleceu-se como proprietário rural na fazenda Bom Descanso, situada no território do atual município de São José do Seridó. Contraiu matrimônio com Maria Rosa da Conceição,  sendo ela filha legítima do capitão João Damasceno Pereira e de Maria dos Santos de Medeiros. O casamento realizou-se aos vinte e seis dias do mês de novembro de mil setecentos e noventa e cinco, na fazenda Picos de Baixo, desta freguesia, depois de cumpridas as diligências necessárias sem que se verificasse impedimento algum, sendo celebrado, com licença do padre coadjutor que supria o lugar do pároco ausente, na presença do reverendo padre José da Costa Soares e das testemunhas o sargento-mor Manuel de Medeiros Rocha e Manuel de Araújo Pereira, ocasião em que João Garcia de Sá, filho legítimo do coronel Antônio Garcia de Sá Barroso, já falecido, e de sua mulher dona Ana Lins de Vasconcelos, recebeu por esposa dona Maria Rosa da Conceição, filha legítima do capitão João Damasceno Pereira e de dona Maria dos Santos de Medeiros, ambos naturais da freguesia, tendo-lhes sido concedidas as bênçãos segundo o rito da Santa Madre Igreja, conforme termo lavrado e assinado pelo cura José Antônio Caetano de Mesquita. João Garcia faleceu aos vinte e quatro dias do mês de junho de mil oitocentos e cinquenta e dois, quando contava oitenta e cinco anos de idade, vindo a óbito por moléstia interior, tendo recebido os sacramentos da Igreja, sendo então morador da freguesia e casado com Maria Rosa da Conceição; seu cadáver foi sepultado na matriz do Seridó, acima das grades, envolto em hábito branco e solenemente encomendado, conforme o assento lavrado e assinado pelo cônego e vigário Manoel José Fernandes, encerrando-se, assim, a trajetória de um personagem integrado às principais redes familiares e fundiárias do Seridó oitocentista.


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MANOEL PEREIRA BOLCONT, nascido por volta do ano de 1766, foi casado com FRANCISCA XAVIER DE VASCONCELOS, filha legítima do casal Manoel Rodrigues da Cruz, já falecido à época, e Teresa Maria José. Francisca Xavier figura sob a classificação BN 2 no capítulo dedicado à descendência de Alexandre Rodrigues da Cruz.

O matrimônio do casal foi celebrado aos dezoito dias do mês de janeiro de mil oitocentos e oito, pelas onze horas da manhã, na Fazenda Mulungu, situada na Freguesia do Seridó. Após a realização das denúncias canônicas, sem que se verificasse qualquer impedimento, e precedidas a confissão, a comunhão e o exame da Doutrina Cristã, o Padre Manoel Teixeira da Fonseca, de licença do ordinário, uniu os nubentes em matrimônio e lhes conferiu as bênçãos nupciais. Manoel Pereira Bolcont era filho legítimo de Luiz Pereira Bolcont, já falecido, e de Antônia Maria de Jesus; Francisca Xavier de Vasconcelos, por sua vez, era filha legítima de Manoel Rodrigues da Cruz e de Teresa Maria José. Foram testemunhas do ato Francisco Pereira Bolcont, solteiro, e Thomaz de Araújo Pereira, casado, ambos moradores na mesma freguesia. O respectivo termo foi lavrado e assinado pelo pároco Francisco de Brito Guerra, para que constasse nos livros paroquiais.

Manoel Pereira Bolcont faleceu aos dezoito dias do mês de julho de mil oitocentos e trinta e oito, sendo sepultado na Matriz do Seridó, de grades acima. Era então casado com Francisca Xavier de Vasconcelos e residia no Sítio Alegre, nesta freguesia. O óbito ocorreu em decorrência de moléstia interior, tendo o falecido recebido todos os sacramentos da Igreja, contando setenta e dois anos de idade. Seu corpo foi envolto em hábito preto e solenemente encomendado, conforme assento lavrado e assinado pelo vice-vigário Manoel José Fernandes.

Registros antigos do Regimento Miliciano da Vila do Príncipe, atual cidade de Caicó, conservados no acervo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, fornecem ainda informações complementares sobre Manoel Pereira Bolcont, também grafado como Bolcão. Consta que Manoel Pereira Bolcão, branco, solteiro à época, morador no distrito do referido regimento, filho do tenente Luiz Pereira Bolcão, contava cerca de dezoito anos de idade quando teve seu nome assentado na lista do corpo miliciano. Posteriormente, foi promovido ao posto de cabo por nomeação do coronel Antônio da Silva e Souza.






O Capitão Manoel Carneiro de Freitas, pernambucano da freguesia de Pau d’Alho, contraiu matrimônio com a paraibana Joana Filgueira de Jesus. Por volta do ano de 1761, o casal estabeleceu residência em sua propriedade denominada Lagoa Nova, situada na Serra do Martins, no atual território do Rio Grande do Norte. Segundo informações transmitidas por seu descendente, o Desembargador Felipe Guerra, Manoel Carneiro de Freitas, já viúvo, veio a falecer em avançada idade, ultrapassando os noventa anos, sendo sepultado na igreja matriz de Portalegre, no ano de 1828. Embora o casal não tenha residido na região do Seridó, sua inclusão neste estudo genealógico justifica-se pelo fato de parcela significativa de sua descendência ter-se transferido para aquela região, onde contraiu matrimônios com membros de famílias tradicionais já ali estabelecidas.

Do casamento de Manoel Carneiro de Freitas e Joana Filgueira de Jesus nasceram vários filhos. Maria Carneiro de Freitas, conhecida pelo apelido de Bibi, casou-se com José Carlos de Freitas, não deixando descendência. Delfina Carneiro de Freitas faleceu solteira, em idade septuagenária. Francisca Romana do Sacramento casou-se com Antônio Fernandes Pimenta, neto do patriarca Antônio Fernandes Pimenta e filho de José Fernandes Pimenta e Josefa Maria da Conceição, vindo a falecer com cerca de oitenta anos, em 10 de janeiro de 1851, sendo sepultada no Apodi. Desse matrimônio nasceram Manoel Fernandes Carneiro, nascido em 1802, que se casou com Maria Cândida Benedita e faleceu em 28 de agosto de 1885; Vicente Praxedes Benevides Pimenta, nascido em 20 de julho de 1805, conhecido por Vicentinho, que contraiu primeiras núpcias, em 1830, com Herculana Josefa do Amor Divino, filha legítima de Gonçalo da Silva Campos e Benta Maria de Jesus, falecida em 23 de março de 1851, vindo Vicente a falecer em 1º de janeiro de 1882, após ter se casado novamente com Antônia Mafalda de Oliveira. Vicente alcançou o posto de tenente-coronel, tendo aprendido as primeiras letras com seu irmão, o padre Bento Fernandes Pimenta, vigário de Quixeramobim, com quem se aperfeiçoou no estudo do latim, chegando a traduzir textos clássicos e a Selecta. Dedicou-se inicialmente ao comércio, estabelecendo-se na cidade do Martins, onde se casou, abandonando posteriormente essa atividade para ingressar na agricultura. Foi batizado com o nome de Praxedes, passando a chamar-se Vicente Praxedes por ocasião da crisma. Possuiu residência conhecida como Casa Grande, ainda existente ao menos até o ano de 1929, sendo reconhecido como homem de honestidade inigualável.

Outro filho foi Luiz Manoel Fernandes, nascido em 25 de dezembro de 1799, que se casou em 30 de janeiro de 1825 com Alexandrina Lourença da Silveira, vindo a falecer em 21 de janeiro de 1878, enquanto sua esposa faleceu em 27 de agosto de 1885. Segundo J. Epitácio Fernandes, ao capitão Antônio sucedeu, na fazenda Sabe-Muito, o coronel Luiz Manoel Fernandes, homem de grande projeção política e social na região e nos municípios vizinhos, cuja residência, ainda que deteriorada, permanecia de pé. Em anos normais, chegava a ferrar até mil e quinhentos bezerros em suas diversas fazendas, tendo exercido o comando da Segunda Companhia do Quarto Batalhão da Guarda Nacional, com sede em sua própria propriedade.

Francisco Fernandes Carneiro, capitão, casou-se com Francisca Alexandrina Carneiro, residindo o casal na fazenda Atoleiro. Francisco faleceu em 18 de março de 1860 e sua esposa em 5 de abril de 1877. Seu inventário alcançou o valor de cento e sessenta contos de réis, incluindo dois mil setecentos e vinte e oito bovinos e doze léguas de terras. Segundo J. Epitácio Fernandes, deixou em inventário, no ano de 1863, cerca de duas mil vacas espalhadas por suas diversas propriedades. Alexandre Fernandes Pimenta casou-se com Maria Mafalda de Amorim, filha de Clemente Gomes de Amorim e Inácia Carneiro de Freitas, vindo a falecer em 23 de agosto de 1842. Mafalda Gomes de Freitas, nascida em 10 de abril de 1804, casou-se em 6 de janeiro de 1821 com o tenente-coronel Antônio Francisco de Oliveira, filho legítimo de Manoel João de Oliveira e Antônia Maria de Jesus, nascido em 1784 e falecido em 19 de março de 1871, enquanto Mafalda faleceu em 16 de novembro de 1843. Bento Fernandes Pimenta seguiu a carreira eclesiástica, tornando-se vigário em Quixeramobim, onde faleceu em 3 de dezembro de 1848. Antônia Rufina da Exaltação, nascida em 1795, faleceu solteira na fazenda Sabe-Muito, em 30 de julho de 1869.

Ana Filgueira de Jesus, nascida em 1759, casou-se em 1776 com seu primo Manoel da Anunciação e Lira, filho de José Daniel de Lira e, segundo algumas informações, de Euxélia Cortez de Negrão, havendo divergências quanto ao local de nascimento do noivo, apontado ora como Paraíba, ora como Missão Velha, no Cariri cearense. Foi realizada busca minuciosa no livro de batizados da freguesia de Missão Velha, referente aos anos de 1748 a 1762, sem que se encontrasse qualquer registro relativo a Manoel da Anunciação e Lira. A tradição afirma que Manoel, cursando o segundo ano de um seminário, abandonou os estudos para contrair matrimônio, casamento que encontrou oposição formal do pai da noiva, Manoel Carneiro de Freitas, tendo o noivo recorrido ao rapto para efetivá-lo. O rompimento familiar foi total, chegando Manoel Carneiro a recusar-se, em artigo de morte, a receber a bênção da filha.

Casados, Manoel e Ana Filgueira estabeleceram-se na fazenda Jatobá, à margem direita do rio Upanema, a três ou quatro léguas de Campo Grande, onde nasceram todos os filhos do casal. Manoel exercia a profissão de marchante de gado, conduzindo boiadas às feiras de Pernambuco e Paraíba. Em uma dessas viagens, adoeceu de varíola e faleceu no povoado de Pasmado, deixando a esposa grávida e sem recursos, além de dívidas a saldar. Ana Filgueira, viúva e pobre, permaneceu no Jatobá, criando dez filhos, enfrentando a grande seca de 1791 a 1793, quando foi auxiliada por seu cunhado Antônio Fernandes Pimenta. Após a seca, retornou à sua residência, sustentando a família com o trabalho do tear e com extrema parcimônia, pagando dívidas deixadas pelo marido, chegando a entregar as próprias joias para satisfazer credores.

Com grande esforço, Ana Filgueira criou todos os seus filhos, nenhum dos quais faleceu na infância, educando-os com dignidade e proporcionando-lhes a instrução possível no sertão abandonado. Após a ida de seu filho, o padre Francisco de Brito Guerra, para o curato da Vila do Príncipe, acompanhou-o ao Caicó, onde passou os últimos anos de sua vida, falecendo em 4 de outubro de 1834, vítima da varíola, aos setenta e cinco anos, sendo sepultada na matriz de Santana do Seridó.

Entre os filhos de Ana Filgueira destacou-se o padre Francisco de Brito Guerra, nascido em 18 de abril de 1777, figura eminente da história religiosa, cultural e política do Rio Grande do Norte, fundador da aula de latinidade do Caicó, da imprensa provincial e detentor de longa e notável carreira eclesiástica e parlamentar, falecido em 26 de fevereiro de 1845. Outros filhos foram Simão Gomes de Brito, casado com Marta Madalena de Medeiros; José Carlos de Brito, casado com Ana Joaquina de Medeiros; Teresa Escolástica de Jesus; Luiza Maria da Encarnação, casada com André José Fernandes; Joana Manoela da Anunciação; João de Freitas Lira; Maria Teresa das Mercês; e Francisca Xavier de Lira.

Inácia Carneiro de Freitas casou-se com Clemente Gomes de Amorim, residindo o casal na Lagoa Nova, no Martins. Desses descendem, entre outros, Vito Antônio de Freitas, sacerdote e vigário de Campo Grande; Regnaldo Gomes de Amorim, também sacerdote e capelão em Portalegre; Clemente Gomes de Amorim; Joaquim Gomes de Amorim; Reinaldo Gomes de Amorim; Alexandrina Lourença da Silveira; Francisca Alexandrina Carneiro; e Maria Mafalda de Amorim.

Florência Nunes da Fonseca casou-se no Martins com João Francisco Fernandes Pimenta, filho de Antônio Fernandes Pimenta e Joana Franklina do Amor Divino. Existe curiosa indagação acerca de eventual parentesco com outra Florência Nunes da Fonseca, presa pela Inquisição em 1731, na Paraíba, sob acusação de judaísmo, filha de Diogo Nunes Chaves e Joana Nunes da Fonseca. A Florência da Lagoa Nova faleceu de varíola na fazenda Jatobá, em novembro de 1849, sendo sepultada na capela da Conceição do Arruda, em local reservado a pedido da família.

Por fim, consta ainda José Carlos da Silva, referido em registros do antigo Regimento Miliciano da Vila da Princesa, como filho de Manoel Carneiro de Freitas, branco, solteiro, com dezoito anos de idade, assentado em livro próprio daquele corpo militar.



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