1750-1759
A história de Currais Novos e de numerosas famílias tradicionais do Seridó confunde-se, de maneira indissociável, com a vida, a obra e o legado do Capitão-Mor Cipriano Lopes Galvão, personagem central do processo de ocupação, organização social e consolidação econômica daquela porção do sertão nordestino.
Nascido em Igarassu, na capitania de Pernambuco, por volta de 1750, era filho do Coronel Cipriano Lopes Galvão e de Dona Adriana de Holanda Vasconcellos. Ainda menino, foi trazido por seus pais, em 1754, para o sítio Totoró, marco inicial da presença familiar na Ribeira do Seridó, numa época em que inexistiam tanto o município de Acari quanto a Vila do Príncipe, atual Caicó, estando toda a região sob a jurisdição da Paraíba.
Desde cedo, Cipriano Lopes Galvão integrou-se à lógica econômica do sertão colonial, baseada na grande criação de gado e na apropriação extensiva da terra. Já estabelecido no Totoró, possuía numeroso rebanho bovino e dispunha de vaqueiros para o manejo das reses.
No mesmo ano de 1754, requereu oficialmente a posse das terras que explorava, conforme registro constante no Livro nº 5 de Sesmarias do Rio Grande do Norte, cuja concessão abrangia vasta área desde a confluência dos rios Totoró e Maxinaré até as proximidades do Rio São Bento.
Tal domínio territorial conferiu-lhe posição de destaque entre os criadores da Ribeira do Seridó e lançou as bases materiais de sua futura influência política e social.
A dinâmica da criação extensiva levou-o a aproveitar as férteis pastagens situadas às margens do Rio São Bento, para onde o gado se deslocava com frequência em busca de água e alimento, o que impunha dificuldades logísticas aos vaqueiros.
Atento a essas necessidades, Cipriano mandou construir currais de pau-a-pique, erguidos com sólidos troncos de aroeira, nos quais se realizavam a ordenha, o adestramento dos bezerros e a marcação do gado com ferros aquecidos ao fogo.
Ao redor dessas estruturas formou-se um núcleo funcional de comércio, troca de animais e hospedagem de parceiros e viajantes, dando origem a um incipiente aglomerado humano.
Com o tempo, outros fazendeiros passaram a requerer terras nas imediações, ergueram-se casas, e a pequena comunidade rural transformou-se no embrião do povoado que mais tarde seria conhecido como Currais Novos, desde o nascimento marcado pela força da pecuária e pelo espírito empreendedor de seus primeiros colonizadores.
Contrariamente a uma tradição equivocada, não foi Sebastião Lopes Galvão, filho do Capitão-Mor, o primeiro morador da Fazenda dos Currais Novos. A primeira casa ali edificada coube, na verdade, ao Coronel Cipriano Lopes Galvão, pai do Capitão-Mor, quando este ainda era criança.
O primeiro a habitar tal construção foi um escravo liberto conhecido pelo apelido de Mulatinho. A segunda casa foi erguida pelo próprio Capitão-Mor Cipriano Lopes Galvão, que nela se estabeleceu com sua família, sobretudo após o segundo casamento de sua mãe, Dona Adriana, que se uniu a Félix Gomes e passou a residir no Totoró.
Nomeado Coronel do Regimento de Cavalaria da Ribeira do Seridó pelo então governador Pedro de Albuquerque Melo, Cipriano Lopes Galvão consolidou-se como uma das maiores autoridades civis e militares da região.
Casou-se com Dona Vicência Lins de Vasconcelos II, nascida em 1757 e falecida em 1827, filha do português Francisco Cardoso dos Santos e de Dona Teresa Lins de Vasconcelos, aliança matrimonial que reforçou ainda mais o prestígio e as conexões familiares do casal.
Dessa união nasceu uma prole numerosa, composta de dez filhos varões e cinco filhas, cuja dispersão pelo território foi decisiva para o povoamento e a estruturação social do Seridó.
Entre seus filhos figuram Cipriano Lopes Galvão Júnior, nascido em 1769 e falecido em 1809; Anna Lins de Vasconcellos, nascida em 1770 e falecida em 1879; José Lopes Galvão, nascido em 1775; João Lopes Galvão, nascido em 1776, que se casou com Joana Francisca de Jesus, filha de José de Freitas Leitão, e foi um dos primeiros a povoar a margem oposta do Rio São Bento; Gonçalo Lopes Galvão, nascido em 1780, que herdou a patente de Capitão-Mor e deu continuidade ao processo de ordenação urbana, construindo casas alinhadas em ruas; Trajano Lopes Galvão, também nascido em 1780; Francisco Lopes Galvão, nascido em 1781 e falecido em 1851, casado com Dona Ana Joaquina de Holanda, filha de Miguel Pinheiro Teixeira, de quem descendem os chamados Lopes dos Namorados; Joaquim Lopes Galvão, nascido em 1787, que se casou com Dona Maria Josefa da Conceição e morou no sítio São Bento; Manoel Lopes Galvão, nascido em 1777 e falecido em 1825, casado com Dona Ana de Araújo Pereira, conhecida como Ana Laureana do Carmo, e residente no Juazeiro do Cipó; Sebastião Lopes Galvão, nascido em 1782 e falecido em 1846, que se casou com sua prima legítima Maria, filha de José de Freitas Leitão e de Francisca Xavier de Moura; Antônio Pio Galvão, nascido em 1785, que se uniu a Dona Adriana Lins de Vasconcelos e permaneceu no Totoró; e Cipriano Lopes Galvão, esposo de Teresa Maria José, residente no São Bento e tronco originário da família Bezerra do Seridó.
Entre as filhas, destacam-se Vicência Lins de Vasconcelos III, nascida em 1783 e falecida em 1852, casada com seu primo legítimo Francisco Januário de Vasconcelos Galvão, personagem lendário da tradição oral seridoense; Ana Lins de Vasconcelos, que se uniu a seu tio Félix Gomes Pequeno, numa prática de endogamia então permitida pela legislação civil e pelas dispensas concedidas pela Igreja Católica; Adriana, que se casou com Alexandre Melo; Maria Manoela de Vasconcelos, nascida em 1789, que contraiu matrimônio com José de Freitas Leitão, filho do homônimo; e Teresa, que permaneceu solteira. Essa intrincada rede de alianças matrimoniais, comum à elite colonial, assegurou a coesão patrimonial e o fortalecimento político da família Galvão ao longo de gerações.
A reputação de Cipriano Lopes Galvão atravessou o tempo associada à imagem de homem probo, equilibrado e de “honestidade a toda prova”, sem que lhe sejam atribuídos atos de barbaridade, tão frequentes em outras lideranças sertanejas do período. Tal percepção encontra respaldo em seu testamento, redigido em 6 de dezembro de 1813, apenas sete dias antes de sua morte, ocorrida em 13 de dezembro do mesmo ano. O documento, escrito em linguagem clara e gramaticalmente correta para os padrões da época, revela não apenas domínio da leitura e da escrita, mas também profundo senso de responsabilidade moral e jurídica, ao tratar minuciosamente de seus bens, de suas obrigações e do destino das pessoas sob sua dependência.
Nesse testamento, menciona o escravo Henrique, empenhado a Miguel Filgueira, determinando que, mesmo vencido o prazo do penhor, poderia ser restituído a seu senhor caso fosse paga a dívida de oitenta e seis mil réis. Registra ainda a situação do escravo Lázaro, a quem prometera liberdade mediante o pagamento de cento e cinquenta mil réis; tendo este já pago trinta e quatro mil réis, Cipriano ordenou expressamente que seus herdeiros cumprissem sua palavra, concedendo-lhe a alforria após a quitação dos cento e dezesseis mil réis restantes, atitude que reforça a imagem de homem zeloso da fides e da palavra empenhada.
Entre os bens mencionados em seus documentos, destaca-se a propriedade da Serra do Piauí, dotada de casa com aviamentos para fazer farinha e de reservatório para armazenamento de água em tempos de estiagem, considerada a primeira construção desse tipo na região, benfeitoria de enorme relevância para a sobrevivência e o progresso local. Essa fazenda pertence atualmente aos descendentes do Dr. Haroldo Bezerra, perpetuando o vínculo histórico entre a terra e as linhagens dela originadas.
Após sua morte, a chefia das terras e do povoado passou a seu filho Gonçalo Lopes Galvão, que prosseguiu na obra do pai, promovendo a organização do espaço urbano, a construção da primeira casa paroquial e da primeira escola. A partir de 1788, a região de Currais Novos, antes vinculada à comarca da Paraíba, passou a integrar Caicó. O povoado foi elevado à condição de Distrito de Paz em 6 de setembro de 1854, tornou-se vila em 15 de outubro de 1890, ao desmembrar-se de Acari, e, finalmente, alcançou o estatuto de cidade em 29 de novembro de 1920.
Assim, a trajetória do Capitão-Mor Cipriano Lopes Galvão confunde-se com a própria gênese de Currais Novos e com a formação social do Seridó. Seu legado, construído sobre trabalho, organização, autoridade e uma concepção rigorosa de honra e responsabilidade, ultrapassou os limites de sua existência individual e projetou-se na história regional, permanecendo como referência fundamental para a compreensão das origens, das estruturas familiares e da identidade histórica do sertão potiguar.
O Capitão-Mor Cipriano Lopes Galvão, o segundo de seu nome, figura entre os personagens mais expressivos da elite sertaneja do início do século XIX, tendo exercido papel central na consolidação econômica, social e simbólica da região do Seridó, então integrada à Freguesia do Siridó, termo da Vila do Príncipe, na Comarca da Paraíba, e pertencente à capitania do Rio Grande do Norte.
A compreensão de sua trajetória não se apoia apenas em referências indiretas ou tradições orais, mas encontra fundamento sólido em fontes primárias de elevado valor historiográfico, considerando o seu testamento, lavrado em 6 de dezembro de 1813, quando se achava “enfermo de hum antraz e já sacramentado”, e o inventário de seus bens, aberto formalmente em 17 de junho de 1814, após o seu falecimento, ocorrido ainda naquele mesmo ano.
Esses documentos, redigidos sob a solenidade jurídica e religiosa própria do Antigo Regime luso-brasileiro, permitem entrever não apenas a dimensão patrimonial de um grande proprietário rural, mas também as estruturas mentais, morais e sociais que sustentavam o poder local no sertão nordestino.
Desde as primeiras linhas de seu testamento, iniciado segundo a fórmula consagrada “Em Nome de Deus”, Cipriano Lopes Galvão apresenta-se como homem consciente da finitude da vida e zeloso da ordenação de seus bens temporais e espirituais.
Casado com Dona Vicência Lins de Vasconcelos, integrante de família igualmente proeminente, estruturou ao longo de décadas um vasto patrimônio e uma extensa rede de alianças familiares, cujo ordenamento final visava assegurar a continuidade do nome, da fortuna e do prestígio do clã Galvão.
Não deixa de causar perplexidade, entrementes, a referência posterior à existência de uma “viúva Dona Theresa”, discrepância documental que pode resultar de erro de transcrição, lapsus calami do escrivão ou complexidade familiar hoje difícil de deslindar, mas que ilustra as limitações e ambiguidades inerentes às referências manuscritas do período.
A prole reconhecida em suas disposições testamentárias revela a amplitude de sua descendência legítima: Joaquim, Antônio e Gonsalo; Vicência, casada com Francisco Januário de Vasconcellos Galvão; Anna, consorciada com Felix Gomes; Adriana, unida a Alexandre de Melo; Francisca, esposa de Gonsalo de Freitas; Cipriano, filho já falecido, cujos filhos legítimos são expressamente chamados à sucessão; e Theresa, falecida solteira.
Em menções posteriores, surge ainda Maria Anna como destinatária de bens, o que reforça a necessidade de leitura atenta e integrada do documento. A indicação nominal dos genros e o reconhecimento formal dos netos como representantes de um herdeiro pré-morto evidenciam a preocupação do patriarca com a regularidade jurídica da sucessão e com a preservação da integritas patrimonial da família, num contexto em que o parentesco, o matrimônio e a herança constituíam os principais vetores de reprodução do poder local.
A base material que sustentava tal estrutura familiar era robusta e diversificada, ancorada essencialmente na posse da terra e na criação extensiva de gado, elementos centrais da economia do nosso sertão colonial. O inventário revela que Cipriano Lopes Galvão detinha extensas propriedades rurais em localidades estratégicas do Seridó, entre as quais se destacam as fazendas e datas de terras do Totoró, de Currais Novos, do Rio da Areia, da Serra de Santa Anna e da Serra do Piauí, nesta última possuindo inclusive uma morada de casas provida de aviamento para fazer farinha, o que indica organização produtiva relativamente complexa para os padrões regionais.
A esses domínios territoriais somava-se um expressivo patrimônio de semoventes, verdadeiro capital vivo da economia seridoense, contendo seiscentas e trinta e uma cabeças de gado bovino, cento e vinte e uma de gado cavalar, cento e vinte de ovinos e oitenta e duas de caprinos, números que o colocam entre os maiores criadores de sua circunscrição e explicam sua posição de relevo na hierarquia social local.
Para além da terra e do gado, o inventário descortina um universo material que denota riqueza, distinção e capacidade de acumulação monetária incomum em regiões de economia predominantemente natural. Encontravam-se em sua casa oitocentos e noventa e seis mil, setecentos e quinze réis em dinheiro corrente, quantia elevada que evidencia notável liquidez financeira.
O acervo de metais preciosos reforça essa imagem de opulência moderada, mas significativa, a exemplo do ouro, figurando um relicário, fio, pulseira, bengala com castão, botões e cadeados; em prata, um copo lavrado, uma salva, um faqueiro completo avaliado em quarenta e sete mil cento e oitenta réis, além de colheres de diversos tamanhos, escumadeira e garfo grande com cabo de prata. Tais objetos não apenas cumpriam funções práticas, mas atuavam como símbolos visíveis de status, decoro e honra, valores caros à elite colonial.
O rol de bens móveis inclui ainda vasta gama de utensílios domésticos, mobiliário e instrumentos de trabalho, reveladores de uma vida cotidiana relativamente confortável e de uma fazenda autossuficiente. Mesas grandes e de cedro, cadeiras de encosto, bancos de diversos tipos, camas de armação e cobertas de sola, malas e copeiras compunham o mobiliário.
Equipamentos produtivos como tear de tecer pano, arado, carro, carreta e cangas de boi indicam atividade agrícola e artesanal integrada. Louças, vidrarias, bandejas, terrinas, aparelhos de chá, castiçais, garrafões e frascos sugerem práticas de sociabilidade e hospitalidade compatíveis com a posição social do proprietário.
Ferramentas de ferro — foices, enxadas, machados, marretas, serrotes, martelos, escopros, serra braçal e torquês —, bem como tachos de cobre, utensílios de latão e estanho, completam o quadro de uma economia doméstica robusta. A presença de espingardas e de um jogo de pistolas remete à necessidade de defesa e à afirmação da autoridade senhorial num sertão em que a presença efetiva do Estado era rarefeita.
No testamento, Cipriano Lopes Galvão declara que “não possui escravos”. No entanto coexiste descendentes da nação africana contemplados com bens conforme especificados no trecho conservado. Tais concessões, embora modestas, insinuam relações pessoais mais complexas, talvez de parentesco informal ou de serviços relevantes, que escapam à rigidez das categorias jurídicas oficiais da época.
No plano espiritual, o testamento revela profunda imersão na religiosidade católica, elemento estruturante da mentalidade colonial. Cipriano encomenda sua alma a Deus, determina que seu corpo seja sepultado na Capela de Nossa Senhora de Sant'Anna dos Currais Novos, espaço sagrado de especial significado comunitário, e solicita que seu enterro se realize “humildemente”, em gesto de contrição que contrasta com a magnitude de seus bens terrenos.
Ordena a celebração de missas por sua alma, ao custo de trezentos e vinte réis cada, e por seus parentes falecidos, a trezentos réis por missa, demonstrando preocupação com o sufrágio das almas no além-túmulo. Particular relevo assume a capela que mandara erigir, cujo zelo e decência confia ao genro Francisco Januário de Vasconcellos Galvão, assegurando, assim, a perpetuação de sua memória pia e de seu nome no seio da comunidade local.
A formalidade que cercou o ato testamentário confirma a relevância social do personagem. O documento foi aprovado e autenticado em Currais Novos, em dezembro de 1813, pelo escrivão Manoel Pereira da Silva e Castro, tendo sido assinado pelo próprio testador e, a seu rogo, pelo Padre Antônio Baptista Coelho. A presença de testemunhas pertencentes à elite regional — José Pais Lial, Roberto Lins de Vasconcellos, João Baptista de Vasconcellos, Antônio Lopes Beto Lins de Vasconcellos e Manoel Correa Jardim — conferiu solenidade pública ao ato, reafirmando a legitimidade jurídica da sucessão e a posição de destaque do falecido.
O testamento foi oficialmente aberto em 14 de dezembro de 1813, poucos dias após sua redação, e o inventário teve seguimento em 1814, garantindo a rápida e ordenada transferência do patrimônio.
Tal corpus documental, composto por certidões de batismo, casamento e buscas negativas em livros antigos, permite não apenas a reconstituição da ascendência direta do habilitando, mas também a compreensão das redes de parentesco, compadrio, prestígio social e inserção institucional que caracterizavam a elite colonial da Paraíba e áreas limítrofes do bispado de Pernambuco.
O ponto de partida dessa reconstituição é o próprio Capitão Antônio Dantas Correa de Góes, por vezes referido também com o título de Alferes, figura central do processo inquisitorial. Natural da Freguesia de Nossa Senhora das Neves, na Cidade da Paraíba, foi ali batizado em 28 de outubro de 1750, na Matriz dedicada à mesma invocação, conforme assento lavrado pelo Reverendo Padre Manoel de Carvalho e posteriormente certificado em 4 de maio de 1807 por Manoel Antônio da Rocha.
O registro declara tratar-se de filho legítimo do Sargento-Mor Jozé Dantas Corrêa e de sua mulher, Dona Thereza de Goes, e aponta como padrinhos o Coronel Lourenço de Goes de Vasconcelos e sua filha Dona Maria de Goes, circunstância que evidencia laços familiares diretos, pois se tratavam, respectivamente, do avô e da tia maternos do batizando.
Já adulto, Antônio Dantas Correa Góes estabeleceu residência na região de Patos, então pertencente ao bispado de Pernambuco, onde contraiu matrimônio em 15 de outubro de 1792, no Sítio de Sam Gonsalo da Serra do Monteiro, com Donna Jozefa Francisca de Araújo.
O assento matrimonial, certificado em 24 de setembro de 1793 por Manoel Rodrigues Xavier, Cura dos Patos e Comissário do Santo Ofício, informa que, àquela data, os pais do noivo já se encontravam falecidos. O mesmo documento identifica a esposa como filha legítima de Joaquim de Araujo de Almeida, igualmente já falecido, e de Dona Mariana Francisca dos Santos Maiores, natural do chamado Cariri de fora, tendo sido testemunhas do enlace o Capitão Bento da Costa Villar e o Juiz Ordinário Jozé Vicente Rodriguez de Carvalho.
A análise da família de Donna Jozefa Francisca de Araújo introduz uma questão frequente na pesquisa genealógica colonial, qual seja, a variação patronímica nos registros. Enquanto o casamento a apresenta como filha de Mariana Francisca dos Santos Maiores, o processo inquisitorial anexa o batismo de uma Marianna, celebrado em 29 de maio de 1757 na Matriz da Paraíba, filha legítima do Sargento-Mor Manoel Rodrigues Pires e de Francisca Coelho Barreto, identificada no conjunto documental como a sogra do habilitando.
A ausência de uma declaração explícita de identidade entre ambas não invalida a informação, mas exige cautela metodológica, sendo a divergência devidamente consignada como elemento relevante para a precisão histórica da linhagem.
O recuo à geração imediatamente anterior conduz à união entre o Sargento-Mor José Dantas Corrêa e Dona Thereza de Gois de Vasconcellos, casamento celebrado em 22 de novembro de 1745, na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Cidade da Paraíba.
Este enlace, que reuniu duas famílias de reconhecida projeção social e militar, contou com testemunhas de grande relevo institucional, entre as quais o Governador Antônio Borges da Fonseca e o Juiz Ordinário Manoel Martins Granjeiro, o que evidencia a posição ocupada pelo casal no tecido social da época.
José Dantas Corrêa, por vezes referido com os títulos de Capitão-Mor e Sargento-Mor, era natural da Freguesia de Nossa Senhora das Neves e, à época do casamento, residia na freguesia do Piancó. Seu batismo ocorreu em 1º de abril de 1708, na Capela de Nossa Senhora do Desterro, sendo padrinhos o Capitão Domingos de Syqr.a da Sylva e sua mulher Maria das Neves.
O assento o identifica como filho legítimo do Alferes Jozé Dantas Corrêa e de Izabel da Rocha Meireles, informação reiterada tanto no registro de batismo quanto no de casamento, consolidando de forma segura sua filiação.
Dona Thereza de Gois de Vasconcellos, por sua vez, era natural e moradora da Cidade da Paraíba, tendo sido batizada em 27 de maio de 1727, na Capela de Santos Cosmo e Damião.
O registro aponta como seus pais o Coronel Lourenço de Gois de Vasconcellos e Dona Maria de Araújo, e como padrinhos o Sargento-Mor Simão de Goes de Vasconcellos e Dona Joanna de Souza Coitinho, reforçando a inserção da família em círculos de prestígio militar e social.
A identificação precisa desse casal parental permite avançar para a geração dos avós do habilitando, cujos registros se situam no limiar entre o final do século XVII e o início do XVIII.
No ramo paterno, o avô Alferes José Dantas Corrêa surge como personagem cuja existência e atuação social são confirmadas por vias indiretas, em razão da não localização de seu batismo, justificada pelo Prior José Elias de Carvalho como decorrente da extrema antiguidade dos livros paroquiais.
Ainda assim, um registro de 1711, no qual figura como padrinho em um casamento, comprova sua presença ativa na Freguesia da Paraíba e o reconhecimento de seu estatuto social naquele contexto. Sua esposa, Izabel da Rocha Meireles, tem o batismo devidamente localizado, celebrado em 16 de fevereiro de 1696, na invocação de Nossa Senhora da Guia, sendo filha legítima de Antônio Pereira e Ricarda da Costa, e tendo como padrinhos João Cardozo e Iria Soares.
Embora o assento não apresente os sobrenomes completos de forma inequívoca, a correlação com os demais documentos permite uma identificação plausível e coerente dentro do conjunto probatório.
No ramo materno, a ascendência conduz ao Coronel Lourenço de Gois de Vasconcellos, igualmente sem registro de batismo localizado, lacuna atribuída à antiguidade extrema dos livros e à impossibilidade de recolher testemunhos diretos sobre seus pais, já falecidos há mais de um século à época das diligências.
Não obstante, o pároco certificador fez constar que se tratava de homem temente a Deus e de bons costumes, fórmula que, no contexto inquisitorial, funcionava como atestado de idoneidade moral e social. Sua esposa, Dona Maria de Araújo e Vasconcellos, possui registro de batismo datado de 22 de abril de 1708, na Capela de Santos Cosmo e Damião de Inhobim, sendo identificada como filha legítima do Capitão Ignacio de Freitas e de Guiomar Fernandes, e tendo como padrinhos o Padre Antônio de Andrade Bezerra e Dona Violante de Souza.
Embora a documentação não estabeleça de modo absolutamente explícito a ligação nominal entre esta Maria e a esposa do Coronel Lourenço, o conjunto das informações aponta para uma correspondência consistente dentro da lógica genealógica apresentada.
As diligências realizadas pelos clérigos e comissários do Santo Ofício, entre os quais se destacam José Elias de Carvalho, Manoel Antônio da Rocha e Manoel Rodrigues Xavier, revelam com clareza os desafios metodológicos da pesquisa genealógica em arquivos coloniais, marcados pela perda, deterioração ou extrema antiguidade dos livros paroquiais.
Para suprir tais lacunas, recorreu-se à consulta cruzada de registros de casamento, à identificação de indivíduos em qualidade de padrinhos ou testemunhas e à validação moral dos investigados, estratégias que, em conjunto, permitiram reconstruir de forma sólida a ramificação direta de Antônio Dantas Correa Góes.
O conjunto documental, além de estabelecer sua genealogia ascendente até o final do século XVII, oferece um retrato expressivo da estrutura social da Paraíba colonial, na qual títulos como Coronel, Capitão-Mor, Sargento-Mor, Capitão e Alferes funcionavam como marcadores de status e autoridade, intimamente articulados ao poder eclesiástico e inquisitorial.
As localidades mencionadas — a Cidade da Paraíba, Patos, Piancó, a Serra do Monteiro e o Cariri de fora — delineiam um espaço de circulação e influência dessas famílias, evidenciando a mobilidade e a capilaridade de suas redes sociais.
Em 1866, durante o recrutamento forçado para a Guerra do Paraguai, o chefe liberal de Teixeira, Dr. Manoel Dantas Correia de Góis, mandou prender adversários políticos, entre os quais Liberato, que foi detido por ordem do delegado Ildefonso Aires, seu tio por afinidade.
Humilhado e encarcerado, Liberato foi libertado quando seu irmão, conhecido como Franco, invadiu a vila de Teixeira à frente de um grupo armado, tomou a cadeia e soltou todos os presos. Dez anos depois, em 24 de março de 1876, o Capitão José Dantas Correia de Góis, irmão do chefe liberal, dirigiu-se à fazenda de Liberato com a intenção de prendê-lo sem respaldo legal.
Ausente no momento da chegada, Liberato organizou uma emboscada com o auxílio de seu vaqueiro e, durante a retirada do grupo, José Dantas foi morto a tiros. A tradição oral registra, de forma quase simbólica, que o capitão levava consigo uma rede destinada a transportar o corpo de Liberato, mas acabou sendo conduzido nela após a morte. O episódio intensificou a perseguição ao fazendeiro, que passou a alinhar-se politicamente ao partido conservador, em oposição aos Dantas, identificados com o liberalismo.
Portanto, a genealogia de Antônio Dantas Correa Góes não se limita à enumeração de nomes e datas, mas se apresenta como testemunho histórico da formação, consolidação e reprodução de uma elite colonial profundamente enraizada nas instituições civis, militares e religiosas do Nordeste português dos séculos XVII e XVIII. A investigação genealógica do tronco de Antônio Dantas Correa Góes fundamenta-se num amplo conjunto de registros paroquiais produzidos entre os séculos XVII e XVIII e posteriormente reunidos, entre 1801 e 1807, no âmbito de um processo de habilitação do Tribunal do Santo Ofício, conservado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.Tal corpus documental, composto por certidões de batismo, casamento e buscas negativas em livros antigos, permite não apenas a reconstituição da ascendência direta do habilitando, mas também a compreensão das redes de parentesco, compadrio, prestígio social e inserção institucional que caracterizavam a elite colonial da Paraíba e áreas limítrofes do bispado de Pernambuco.
O ponto de partida dessa reconstituição é o próprio Capitão Antônio Dantas Correa de Góes, por vezes referido também com o título de Alferes, figura central do processo inquisitorial. Natural da Freguesia de Nossa Senhora das Neves, na Cidade da Paraíba, foi ali batizado em 28 de outubro de 1750, na Matriz dedicada à mesma invocação, conforme assento lavrado pelo Reverendo Padre Manoel de Carvalho e posteriormente certificado em 4 de maio de 1807 por Manoel Antônio da Rocha.
O registro declara tratar-se de filho legítimo do Sargento-Mor Jozé Dantas Corrêa e de sua mulher, Dona Thereza de Goes, e aponta como padrinhos o Coronel Lourenço de Goes de Vasconcelos e sua filha Dona Maria de Goes, circunstância que evidencia laços familiares diretos, pois se tratavam, respectivamente, do avô e da tia maternos do batizando.
Já adulto, Antônio Dantas Correa Góes estabeleceu residência na região de Patos, então pertencente ao bispado de Pernambuco, onde contraiu matrimônio em 15 de outubro de 1792, no Sítio de Sam Gonsalo da Serra do Monteiro, com Donna Jozefa Francisca de Araújo.
O assento matrimonial, certificado em 24 de setembro de 1793 por Manoel Rodrigues Xavier, Cura dos Patos e Comissário do Santo Ofício, informa que, àquela data, os pais do noivo já se encontravam falecidos. O mesmo documento identifica a esposa como filha legítima de Joaquim de Araujo de Almeida, igualmente já falecido, e de Dona Mariana Francisca dos Santos Maiores, natural do chamado Cariri de fora, tendo sido testemunhas do enlace o Capitão Bento da Costa Villar e o Juiz Ordinário Jozé Vicente Rodriguez de Carvalho.
A análise da família de Donna Jozefa Francisca de Araújo introduz uma questão frequente na pesquisa genealógica colonial, qual seja, a variação patronímica nos registros. Enquanto o casamento a apresenta como filha de Mariana Francisca dos Santos Maiores, o processo inquisitorial anexa o batismo de uma Marianna, celebrado em 29 de maio de 1757 na Matriz da Paraíba, filha legítima do Sargento-Mor Manoel Rodrigues Pires e de Francisca Coelho Barreto, identificada no conjunto documental como a sogra do habilitando.
A ausência de uma declaração explícita de identidade entre ambas não invalida a informação, mas exige cautela metodológica, sendo a divergência devidamente consignada como elemento relevante para a precisão histórica da linhagem.
O recuo à geração imediatamente anterior conduz à união entre o Sargento-Mor José Dantas Corrêa e Dona Thereza de Gois de Vasconcellos, casamento celebrado em 22 de novembro de 1745, na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Cidade da Paraíba.
Este enlace, que reuniu duas famílias de reconhecida projeção social e militar, contou com testemunhas de grande relevo institucional, entre as quais o Governador Antônio Borges da Fonseca e o Juiz Ordinário Manoel Martins Granjeiro, o que evidencia a posição ocupada pelo casal no tecido social da época.
José Dantas Corrêa, por vezes referido com os títulos de Capitão-Mor e Sargento-Mor, era natural da Freguesia de Nossa Senhora das Neves e, à época do casamento, residia na freguesia do Piancó. Seu batismo ocorreu em 1º de abril de 1708, na Capela de Nossa Senhora do Desterro, sendo padrinhos o Capitão Domingos de Syqr.a da Sylva e sua mulher Maria das Neves.
O assento o identifica como filho legítimo do Alferes Jozé Dantas Corrêa e de Izabel da Rocha Meireles, informação reiterada tanto no registro de batismo quanto no de casamento, consolidando de forma segura sua filiação.
Dona Thereza de Gois de Vasconcellos, por sua vez, era natural e moradora da Cidade da Paraíba, tendo sido batizada em 27 de maio de 1727, na Capela de Santos Cosmo e Damião.
O registro aponta como seus pais o Coronel Lourenço de Gois de Vasconcellos e Dona Maria de Araújo, e como padrinhos o Sargento-Mor Simão de Goes de Vasconcellos e Dona Joanna de Souza Coitinho, reforçando a inserção da família em círculos de prestígio militar e social.
A identificação precisa desse casal parental permite avançar para a geração dos avós do habilitando, cujos registros se situam no limiar entre o final do século XVII e o início do XVIII.
No ramo paterno, o avô Alferes José Dantas Corrêa surge como personagem cuja existência e atuação social são confirmadas por vias indiretas, em razão da não localização de seu batismo, justificada pelo Prior José Elias de Carvalho como decorrente da extrema antiguidade dos livros paroquiais.
Ainda assim, um registro de 1711, no qual figura como padrinho em um casamento, comprova sua presença ativa na Freguesia da Paraíba e o reconhecimento de seu estatuto social naquele contexto. Sua esposa, Izabel da Rocha Meireles, tem o batismo devidamente localizado, celebrado em 16 de fevereiro de 1696, na invocação de Nossa Senhora da Guia, sendo filha legítima de Antônio Pereira e Ricarda da Costa, e tendo como padrinhos João Cardozo e Iria Soares.
Embora o assento não apresente os sobrenomes completos de forma inequívoca, a correlação com os demais documentos permite uma identificação plausível e coerente dentro do conjunto probatório.
No ramo materno, a ascendência conduz ao Coronel Lourenço de Gois de Vasconcellos, igualmente sem registro de batismo localizado, lacuna atribuída à antiguidade extrema dos livros e à impossibilidade de recolher testemunhos diretos sobre seus pais, já falecidos há mais de um século à época das diligências.
Não obstante, o pároco certificador fez constar que se tratava de homem temente a Deus e de bons costumes, fórmula que, no contexto inquisitorial, funcionava como atestado de idoneidade moral e social. Sua esposa, Dona Maria de Araújo e Vasconcellos, possui registro de batismo datado de 22 de abril de 1708, na Capela de Santos Cosmo e Damião de Inhobim, sendo identificada como filha legítima do Capitão Ignacio de Freitas e de Guiomar Fernandes, e tendo como padrinhos o Padre Antônio de Andrade Bezerra e Dona Violante de Souza.
Embora a documentação não estabeleça de modo absolutamente explícito a ligação nominal entre esta Maria e a esposa do Coronel Lourenço, o conjunto das informações aponta para uma correspondência consistente dentro da lógica genealógica apresentada.
As diligências realizadas pelos clérigos e comissários do Santo Ofício, entre os quais se destacam José Elias de Carvalho, Manoel Antônio da Rocha e Manoel Rodrigues Xavier, revelam com clareza os desafios metodológicos da pesquisa genealógica em arquivos coloniais, marcados pela perda, deterioração ou extrema antiguidade dos livros paroquiais.
Para suprir tais lacunas, recorreu-se à consulta cruzada de registros de casamento, à identificação de indivíduos em qualidade de padrinhos ou testemunhas e à validação moral dos investigados, estratégias que, em conjunto, permitiram reconstruir de forma sólida a ramificação direta de Antônio Dantas Correa Góes.
O conjunto documental, além de estabelecer sua genealogia ascendente até o final do século XVII, oferece um retrato expressivo da estrutura social da Paraíba colonial, na qual títulos como Coronel, Capitão-Mor, Sargento-Mor, Capitão e Alferes funcionavam como marcadores de status e autoridade, intimamente articulados ao poder eclesiástico e inquisitorial.
As localidades mencionadas — a Cidade da Paraíba, Patos, Piancó, a Serra do Monteiro e o Cariri de fora — delineiam um espaço de circulação e influência dessas famílias, evidenciando a mobilidade e a capilaridade de suas redes sociais.
Em 1866, durante o recrutamento forçado para a Guerra do Paraguai, o chefe liberal de Teixeira, Dr. Manoel Dantas Correia de Góis, mandou prender adversários políticos, entre os quais Liberato, que foi detido por ordem do delegado Ildefonso Aires, seu tio por afinidade.
Humilhado e encarcerado, Liberato foi libertado quando seu irmão, conhecido como Franco, invadiu a vila de Teixeira à frente de um grupo armado, tomou a cadeia e soltou todos os presos. Dez anos depois, em 24 de março de 1876, o Capitão José Dantas Correia de Góis, irmão do chefe liberal, dirigiu-se à fazenda de Liberato com a intenção de prendê-lo sem respaldo legal.
Ausente no momento da chegada, Liberato organizou uma emboscada com o auxílio de seu vaqueiro e, durante a retirada do grupo, José Dantas foi morto a tiros. A tradição oral registra, de forma quase simbólica, que o capitão levava consigo uma rede destinada a transportar o corpo de Liberato, mas acabou sendo conduzido nela após a morte. O episódio intensificou a perseguição ao fazendeiro, que passou a alinhar-se politicamente ao partido conservador, em oposição aos Dantas, identificados com o liberalismo.
Portanto, a genealogia de Antônio Dantas Correa Góes não se limita à enumeração de nomes e datas, mas se apresenta como testemunho histórico da formação, consolidação e reprodução de uma elite colonial profundamente enraizada nas instituições civis, militares e religiosas do Nordeste português dos séculos XVII e XVIII.
Fonte primária de valor inestimável, o inventário revela não apenas a extensão de sua riqueza, mas também a forma como esta se organizava e se projetava sobre a sociedade seridoense. A relevância histórica de Manoel de Medeiros Rocha consolida-se definitivamente pelo fato de ter sido proprietário da Fazenda do Remédio, núcleo original que, ao longo do tempo, daria origem à atual cidade de Cruzeta, inscrevendo seu nome de maneira permanente na geografia humana do Seridó.
Nascido entre os anos de 1752 e 1757, Manoel era o filho caçula de Rodrigo de Medeiros Rocha e de Apolônia Barbosa de Araújo, casal que o inseriu, desde o nascimento, em uma linhagem já firmemente estabelecida na região. Em um sertão no qual as relações de parentesco e as alianças matrimoniais constituíam instrumentos centrais de consolidação do poder, a filiação não era mero dado biográfico, mas verdadeiro alicerce de toda a trajetória social. As famílias funcionavam como corporações econômicas e políticas, articulando interesses, protegendo patrimônios e assegurando a reprodução do prestígio ao longo das gerações, de modo que nascimento, casamento e herança formavam um continuum indissociável.
A consolidação de sua posição social foi reforçada pelo casamento com Ana de Araújo Pereira, filha legítima de Antônio Pais de Bulhões e de Ana de Araújo Pereira, união que aproximou dois troncos familiares de reconhecida importância regional. A esposa faleceu em 4 de setembro de 1834, tendo seu inventário sido processado já no ano seguinte, circunstância que repercutiu diretamente sobre o patrimônio posteriormente arrolado no inventário do capitão-mor, uma vez que parte dos bens já se encontrava partilhada. Dessa união nasceu, entre outros descendentes, o capitão José Barbosa de Medeiros, que assumiu a condição de filho inventariante e foi o responsável por dar início, em 1839, ao processo de partilha dos bens paternos. A identidade familiar que emerge desse procedimento encontra-se intimamente ligada à Fazenda do Remédio, principal morada e centro do poder econômico do patriarca.
A vida de Manoel de Medeiros Rocha gravitou em torno da terra e da pecuária, pilares fundamentais da economia seridoense. A posse de extensas propriedades e de numerosos rebanhos não representava apenas acumulação de riqueza material, mas também autoridade social, capacidade de comando e influência política. Sua residência principal, a Fazenda do Remédio, revestia-se de importância histórica singular por ter se convertido, com o tempo, no embrião urbano da futura cidade de Cruzeta. Além dela, o inventário registra a posse de terras no Sítio do Pau-d’Arco, na Data da Caatinga Grande e no Sítio da Bonita, embora sem indicação das dimensões dessas propriedades, observando ainda que, à época do falecimento do capitão-mor, os bens de raiz se encontravam “muito reduzidos” em virtude da partilha anterior dos bens de sua esposa.
Apesar dessa redução, a análise do rebanho evidencia a expressiva dimensão de sua riqueza pecuária. O inventário registra a existência de duzentas e cinquenta cabeças de gado bovino, duzentos ovinos, vinte e oito cavalares e vinte e seis caprinos, números que indicam uma atividade de criação diversificada e de escala considerável para os padrões da época. Como parâmetro de valor, o documento informa que, em 1839, uma vaca solteira era avaliada em 12$000 réis; tomando-se esse valor como referência, apenas o rebanho bovino representava capital estimado em, no mínimo, 3:000$000 (três contos de réis), cifra que se aproximava do montante total do espólio e evidencia o papel do gado como principal reserva de riqueza. Não se tratava de uma economia monetarizada, pois o inventário registra expressamente a inexistência de numerário em espécie, consignando simplesmente “Nada”, o que confirma a concentração da fortuna em bens tangíveis e duráveis.
O valor total partilhado entre os herdeiros alcançou a soma de 3:245$662 (três contos, duzentos e quarenta e cinco mil, seiscentos e sessenta e dois réis), oferecendo um retrato minucioso do cotidiano e dos símbolos de distinção social do capitão-mor. A enumeração dos bens domésticos revela padrão de vida elevado, distante da imagem de rusticidade comumente associada ao sertão. Destacam-se, em particular, os objetos de prata e ouro. Do ouro, consta apenas um item modesto, um ângulo avaliado em 3$200 réis; já a prata assume papel central como símbolo de status e reserva de valor, compondo vasta coleção de faqueiros completos, numerosas colheres de sopa e de chá, copos, uma salva, aparelhos de faca, porções de prata velha e de galão, cujo peso total ultrapassava setecentas oitavas.
O mobiliário e os utensílios domésticos reforçam essa imagem de conforto e sofisticação, incluindo mesas — uma delas com gaveta —, uma cômoda destinada à guarda de papéis, uma marquesa, oito cadeiras, louças finas, vidros, utensílios de cobre, ferro e estanho, além de uma balança inglesa, indício eloquente de acesso a bens importados. O enxoval doméstico compreendia redes de varanda, cobertores, lençóis, toalhas, um baú e uma mala de couro, compondo ambiente compatível com o de uma elite rural consciente da importância dos sinais exteriores de distinção.
O inventário evidencia ainda as habilidades de Manoel de Medeiros Rocha como homem de armas e de trabalho. Sua condição de capitão-mor manifesta-se no vestuário e no armamento arrolados, como a farda de cavalaria, a jaqueta de Ordenanças, uma sobrecasaca de pano fino, pistolas, espingarda, bacamarte e um florete, objetos que não eram meramente simbólicos, mas instrumentos concretos de autoridade, defesa e afirmação hierárquica. Paralelamente, a presença de ferramentas agrícolas e de equipamentos ligados à pecuária e ao transporte — machados, enxós, foices, limas, cangalhas, canga de bois, couros e até uma algema com cadeado — revela a autossuficiência produtiva da fazenda e a gestão direta das atividades que sustentavam sua riqueza.
Em meio a esse quadro de opulência material, destaca-se um dado singular: a presença de apenas um afrodescendente em seu meio. Para um proprietário de terras e rebanhos dessa magnitude, tal informação é significativa e rompe com o estereótipo do grande fazendeiro escravista, sobretudo porque o Seridó não seguiu o modelo econômico do litoral canavieiro. Na região, vaqueiros e ajudantes campeavam livres pelos campos, recebendo, como pagamento, a quarta parte da bezerrada nascida. O registro sugere, assim, uma estrutura produtiva menos dependente da mão de obra cativa, possivelmente baseada em agregados e em outras formas de relação laboral, abrindo espaço para interpretações mais nuançadas acerca da organização do trabalho na Fazenda do Remédio. Não se pode olvidar, ademais, que os descendentes de africanos coexistentes no Seridó eram frequentemente agregados às famílias senhoriais, compartilhando a mesa da cozinha, cuidando das crianças e estabelecendo laços afetivos e matrimoniais, conforme atestam diversas fontes documentais.
Manoel de Medeiros Rocha faleceu em 8 de fevereiro de 1837, em um ano descrito como “muito escasso de inverno”, expressão que ancora sua morte nas duras condições climáticas do Seridó e lembra a permanente vulnerabilidade da economia regional às irregularidades das chuvas. Seu inventário só seria iniciado dois anos depois, em 5 de agosto de 1839, já em um “ano de grande inverno”, sob a jurisdição do juiz de órfãos Gregório José Dantas Corrêa, tendo como escrivão Miguel Pinheiro de Vasconcelos e como louvados o capitão Antônio Pereira de Araújo e o tenente-coronel Cipriano Lopes Galvão.
É, portanto, a partir da leitura atenta desse conjunto documental que Manoel de Medeiros Rocha emerge como personificação da elite seridoense oitocentista, cuja história se confunde com a própria formação social, econômica e territorial da região. Seu legado ultrapassa a soma dos bens arrolados em sua partilha e projeta-se no imaginário contemporâneo, permanecendo vivo como símbolo de um tempo, de uma estrutura social e de um processo histórico que moldaram, de forma decisiva, o Seridó potiguar.
GREGÓRIO JOSÉ DANTAS CORREIA (1756-1840) A compreensão da trajetória de Gregório José Dantas Correia, nascido em 1756 e falecido em 1840, impõe, antes de tudo, o devido enquadramento histórico, político e administrativo do espaço no qual sua família se formou, se projetou e consolidou sua influência.
As ações que marcou sua vida pública, os cargos que exerceu e as alianças familiares que estabeleceu somente se tornam plenamente inteligíveis quando inseridos no contexto institucional do Rio Grande do Norte setecentista e oitocentista, território que, ao longo dos séculos XVIII e XIX, acompanhou as transformações estruturais do próprio Brasil, transitando do regime colonial para a ordem imperial.
Quando de seu nascimento, em 1756, a região integrava a antiga Capitania do Rio Grande, unidade administrativa da América portuguesa diretamente subordinada à Coroa e, por largo período, dependente da Capitania de Pernambuco.
Tratava-se de um mundo regido pela lógica colonial, no qual a ocupação territorial, a concessão de sesmarias, o exercício de patentes militares e a inserção em cargos civis e judiciais constituíam os principais instrumentos de ascensão e afirmação social das famílias dominantes.
Nesse ambiente se estruturou o berço Dantas Correia, profundamente vinculada à posse da terra, ao exercício do mando local e à ocupação de posições de autoridade, compondo o núcleo seridoense responsáveis pela organização material e simbólica do território.
Ao longo do século XVIII, consolidou-se progressivamente o uso do qualificativo “do Norte”, destinado a distinguir o Rio Grande setentrional do homônimo meridional, processo já plenamente perceptível quando Gregório atingiu a maturidade.
Sua existência, assim, atravessou o ocaso do período colonial e os primórdios do Brasil independente, assistindo à transformação das capitanias em províncias, formalizada a partir de 1821–1822, quando se inaugurou o período imperial. Foi nesse novo quadro institucional que Gregório José Dantas Correia desempenhou papel de relevo na vila de Caicó, exercendo, nas primeiras décadas do século XIX, o cargo de Juiz de Órfãos, função de elevada responsabilidade jurídica e social.
O Juízo de Órfãos, verdadeiro officium publicum de grande dignidade, incumbia-se da tutela dos menores, da administração de heranças e da salvaguarda dos patrimônios familiares, elementos essenciais à preservação da ordem social em uma sociedade fundada na transmissão intergeracional dos bens e do prestígio.
O exercício desse cargo por Gregório não refletia apenas qualidades pessoais de prudência e reputação ilibada, mas, sobretudo, o capital simbólico acumulado por sua família ao longo de gerações, em um sertão no qual a mediação dos conflitos e a proteção dos herdeiros eram pilares do equilíbrio comunitário.
Filho do Coronel Caetano Dantas Correia, nascido em 1710 e falecido em 1797, figura emblemática do mando local e expoente do sangue associado às famílias Dantas Correia e Araújo Pereira, Gregório nasceu já inserido em um círculo privilegiado da sociedade seridoense.
O título de Coronel, longe de se restringir a uma mera patente honorífica, representava, no contexto regional, o ápice da autoridade política e militar, sustentada pela posse de vastas extensões de terra, pelo comando de homens armados e pela capacidade de articular redes de dependência e lealdade.
Dessa herança paterna, Gregório recebeu não apenas patrimônio material, mas também um complexo sistema de relações sociais que lhe assegurou posição destacada desde os primeiros anos de vida.
Esse patrimônio social e simbólico foi significativamente ampliado por meio de uma aliança matrimonial estrategicamente construída. Gregório José Dantas Correia contraiu matrimônio com Teresa Maria de Jesus, nascida em 1781 e falecida em desconhecida por nós, descendente da influente família Medeiros Rocha.
Teresa era filha do Alferes Antônio de Medeiros Rocha (1751-1833) e de Maria da Purificação (1766-1826), pertencendo ao grupo familiar conhecido como os irmãos Medeiros Rocha, cuja presença marcante na vida política, militar e econômica da região lhes conferia elevado prestígio.
O enlace entre Gregório e Teresa deve ser compreendido como um verdadeiro foedus familiaris, no qual se fundiram patrimônios, prestígios e redes de influência, fortalecendo ainda mais a posição do casal na conjuntura política, econômica e social de Caicó-Acari e de suas áreas circunvizinhas.
As conexões forjadas tanto pela ascendência quanto pelo matrimônio transformaram Gregório José Dantas Correia em ponto de convergência de importante tronco seridoense, consolidando-o como figura central na liderança do lugar. Sua atuação pública e sua inserção familiar ilustram, de modo exemplar, a lógica de funcionamento dessas diretrizes, nas quais o poder se transmitia per sanguinem e per matrimonium, articulando tradição, estratégia e continuidade.
Teoricamente, não se limita a uma sucessão de nomes e datas, mas busca reconstruir, com rigor historiográfico e método genealógico, a formação e a projeção de um povo que atravessou o período colonial, adaptou-se às estruturas do Império e deixou marcas duradouras na história do sertão do Rio Grande do Norte e da Paraíba.
A vida de Gregório José Dantas Correia emerge, assim, como elo entre passado e transição, tradição e permanência.
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Simplício Francisco Dantas Corrêa, nascido entre os anos de 1759 e 1763, contraiu matrimônio em primeiras núpcias com Manoela Dornelles de Bittencourt, integrante da descendência de Antônio Garcia de Sá, filha de Antônio Garcia de Sá Barroso e Ana Lins de Vasconcelos, união da qual nasceram diversos filhos. Após o falecimento de sua primeira esposa, Simplício casou-se, em segundas núpcias, com Ana Francisca de Medeiros, filha de João Crisóstomo de Medeiros e Francisca Xavier, pertencente à descendência de Pedro Ferreira das Neves, matrimônio celebrado no mesmo dia do falecimento de Caetano Dantas Corrêa; Ana Francisca veio a falecer aos vinte e nove de novembro de mil oitocentos e vinte e cinco, na Capela do Acari, com quarenta e seis anos de idade, tendo recebido todos os sacramentos, sendo seu corpo envolto em hábito branco e solenemente encomendado pelo Padre Manoel da Silva Ribeiro, conforme assento lavrado pelo Vigário Francisco de Brito Guerra. Em terceiras núpcias, Simplício Francisco Dantas Corrêa desposou Rita Maria da Conceição, filha de José Ferreira de Melo e Joana Maria de Castro. Do primeiro matrimônio com Manoela Dornelles de Bittencourt nasceram, entre outros, Manoel José Dantas, conhecido como Manezinho da Água Doce, que se casou com Maximiana Maria da Conceição, filha de José de Azevedo Maia e Tomázia Maria da Conceição, casamento celebrado aos sete dias do mês de janeiro de mil oitocentos e dezenove, na Fazenda Carnaúba, após as devidas dispensas, confissão, comunhão e exame de doutrina cristã, conforme registro paroquial; José Manoel Dantas, conhecido como Zé Manoel das Várzeas, que residiu no Picuí, na Paraíba, casado com Joaquina, filha do Capitão Antônio Ferreira de Macedo; Serafina, falecida ainda lactente, com cerca de cinco meses de idade, sepultada na Capela do Acari no ano de mil setecentos e noventa, sem encomendação por ausência de sacerdote no local, conforme assento paroquial; e ainda um filho chamado João, falecido com apenas seis dias de nascido, sepultado aos dois dias do mês de julho de mil setecentos e noventa e cinco, após ter sido batizado em casa em perigo de morte, filho legítimo de Simplício Francisco Dantas Corrêa e de Dona Manoela Dornelles de Bittencourt, conforme registrado nos livros da Capela de Nossa Senhora da Guia do Acari.
Gregório José Dantas, nascido em 175 filho do casal Gregório José Dantas Corrêa e Joana de Araújo Pereir, faleceu solteiro aos oito dias do mês de maio de mil setecentos e noventa, com trinta e dois anos de idade, tendo recebido sepultura eclesiástica após falecer com todos os sacramentos. Era morador nos Picos de Baixo, freguesia da Gloriosa Santa Anna do Seridó, tendo sido envolto em hábito de Nossa Senhora do Carmo e sepultado na Capela do Acari, filial da referida matriz, conforme assento lavrado pelo Cura José Antônio Caetano de Mesquita.
Dos autos do inventário dos bens de Gregório José Dantas Corrêa, marido de Joana de Araújo Pereira, colhem-se informações relevantes acerca da situação e educação de seus filhos. O inventário foi iniciado na cidade do Natal, no ano de 1760, perante o Juiz de Órfãos, capitão Simão Rodrigues de Faria. Em treze de outubro de 1763, o capitão Estêvão Álvares Bezerra, segundo marido de Dona Joana e tutor dos enteados, foi notificado a prestar contas dos bens dos órfãos, comparecendo perante o então Juiz de Órfãos, capitão José Pedro de Vasconcelos, ocasião em que apresentou contas no valor de 1:090$101 correspondentes à herança de cada menor. Na mesma oportunidade, declarou que o órfão Albino se encontrava bem educado, sabendo ler, escrever e contar, frequentando estudos de gramática na vila de Porto Alegre; que a órfã Rosa já se encontrava em idade moça, vivendo em casa e aprendendo os ofícios femininos com sua mãe e com o tutor, recebendo educação compatível com a que se podia esperar de uma mãe para sua filha; e que o órfão Gregório, então com cinco para seis anos de idade, não frequentava ainda escola por ser acometido de moléstias, sendo todos sustentados até aquele momento às expensas do tutor.
Aos trinta de junho de 1766, o capitão Tomaz de Araújo Pereira, na qualidade de procurador do capitão Estêvão Álvares Bezerra, prestou nova conta dos bens dos órfãos perante o Juiz de Órfãos, ajudante Alexandre de Mello Pinto. Em 1769, João Damasceno Pereira, igualmente como procurador do capitão Estêvão Álvares Bezerra, apresentou contas perante o Juiz de Órfãos, capitão Francisco Pinheiro Teixeira, declarando que o órfão Albino contava então dezessete anos de idade, encontrava-se bem educado, sabia ler, escrever e possuía alguma noção de contar, embora já não frequentasse estudos de gramática; que a órfã Rosa era viva, com quinze anos de idade, sabia coser e fazer renda, revelando capacidade para governar uma casa e encontrando-se bem educada; e que o órfão Gregório tinha onze anos de idade e, por andar adoentado, ainda nada aprendera. Em 1772, João Damasceno Pereira voltou a prestar contas dos bens dos menores, declarando que o órfão Albino contava então vinte anos de idade e permanecia bem educado.
Da descendência de Gregório José Dantas Corrêa e Joana de Araújo Pereira há notícia ainda de uma filha de Rosa, chamada igualmente Joana, a qual veio a contrair matrimônio com Antônio Dantas Corrêa, um dos filhos de Caetano Dantas Corrêa, conforme tradição genealógica registrada.
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ANTÔNIO DE AZEVEDO MAIA, o segundo do nome, nasceu por volta de 1751, sendo natural da freguesia da Paraíba, e contraiu matrimônio cerca de 1767 com MICAÉLA DANTAS PEREIRA, filha de Caetano Dantas Corrêa e de Josefa de Araújo Pereira, integrante da descendência de Tomaz de Araújo Pereira. A trajetória desse casal está intimamente ligada à formação histórica e urbana do atual município de Jardim do Seridó, cuja origem remonta à fazenda Conceição do Azevedo.
Segundo Dom José Adelino Dantas, encontra-se arquivada no 1º Cartório do Caicó, no livro de notas nº 1, folha 114, a escritura de doação destinada à constituição do patrimônio da Capela sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição, que o Tenente Antônio de Azevedo Maia e sua mulher, Dona Micaéla Dantas Pereira, pretendiam erigir na ribeira do Seridó, em terras da referida fazenda. Tal doação consistiu em seiscentas braças de terras, constituindo o núcleo inicial que daria origem à povoação e, posteriormente, à cidade de Jardim do Seridó. Consta ainda que, entre os bens de raiz possuídos de mansa e pacífica posse pelo casal, figurava um sítio de terras de criar gado, denominado Conceição, situado na ribeira do Seridó, com extensão de uma légua e meia de comprimento por uma de largura, adquirido por título de compra ao Sargento-Mor Alexandre Nunes Maltez, mediante escritura pública lavrada pelo tabelião da vila de Igarassu.
O general Kyval da Cunha Medeiros, também descendente de Antônio de Azevedo Maia, registra, em seu trabalho Cinco Gerações, cinco documentos fundamentais relacionados à edificação da capela da Conceição do Azevedo: um requerimento dirigido ao bispo de Pernambuco, com despacho datado de 20 de maio de 1790; a provisão para ereção da capela, expedida em Olinda aos 10 de maio de 1790 pelo bispo Dom Diogo de Jesus Jardim; um requerimento ao governador do bispado solicitando a provisão de bênção da capela; a informação prestada pelo vigário do Seridó, encaminhando pedido no qual Antônio de Azevedo Maia solicitava sepultura na capela por ele edificada, datada de 12 de novembro de 1808; e, por fim, a provisão para a construção da referida sepultura, concedida em Olinda aos 14 de março de 1809.
Por ocasião do casamento, Micaéla Dantas Pereira levou como dote paterno considerável patrimônio, conforme se verifica no inventário de seu pai, composto de cem mil réis em dinheiro; uma escrava chamada Rita, da nação da Costa; uma escrava denominada Vicência, crioula, com seis meses de idade; dez potras; três potros machos; trinta e quatro vacas avaliadas em dois mil réis cada uma; trinta e três novilhas; trinta e três garrotas; terras de criar gado no sítio da Conceição, na ribeira do Seridó; um pedaço de terras para lavouras na serra do Coité, além de diversos objetos de prata e cobre e joias de ouro, perfazendo o dote o montante de 606$500, à época em que a oitava de ouro, com peso de 3,589 gramas, equivalia a 1$400.
Luís da Câmara Cascudo, em O Livro das Velhas Figuras, volume I, faz alusões relevantes à figura de Antônio de Azevedo Maia e à fazenda Conceição, registrando que ali se fundou a mencionada fazenda, cujas cercas do curral de gado atravessavam a atual rua Capitão José da Penha, defronte à cadeia pública. Em 2 de junho de 1794, o capitão-general Dom Tomás José de Melo, governador de Pernambuco, nomeou Antônio de Azevedo Maia capitão da cavalaria de ordenanças da Vila do Príncipe, atual Caicó. Cascudo informa ainda haver consultado o inventário de Micaéla Dantas Pereira, no cartório de Jardim do Seridó, no qual o espólio foi avaliado em 1:865$750, com dívidas de 520$000, resultando líquido o valor de 1:345$750, observando-se que um boi manso era avaliado em onze mil réis.
Ainda subsiste, em Jardim do Seridó, a antiga casa de residência de Antônio de Azevedo Maia, situada na área da primitiva fazenda Conceição do Azevedo, embora bastante descaracterizada por reformas posteriores. O termo de sepultamento de Micaéla Dantas Pereira registra que, aos doze dias do mês de junho de mil setecentos e noventa e nove, faleceu a referida senhora, casada com o capitão Antônio de Azevedo Maia, aos quarenta e cinco anos de idade, tendo recebido todos os sacramentos, sendo sepultada no corpo da igreja, envolta em hábito franciscano, com as cerimônias de estilo.
Antônio de Azevedo Maia não permaneceu viúvo por muito tempo, tendo contraído segundas núpcias com Maria José de Santana. O termo de sepultamento registra que, ao primeiro dia do mês de maio de mil oitocentos e vinte e dois, foi sepultado na capela da Conceição o cadáver de Antônio de Azevedo Maia, então casado com Maria José de Santana, falecido aos setenta anos de idade, envolto em hábito branco, sepultado acima das grades, com as devidas cerimônias religiosas. Segundo José Augusto, em Famílias Seridoenses, o segundo Azevedo Maia, precursor de Jardim do Seridó, deixou do segundo matrimônio apenas um filho, Antônio Gomes, tendo sua esposa Maria José de Santana sobrevivido ao marido. Frei Caneca, em sua narrativa da travessia pelo Seridó em 1824, tece elogiosas referências a Dona Maria José, atestando a relevância social e moral da figura que permaneceu como herdeira da tradição fundada por Antônio de Azevedo Maia.
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JOSÉ DE AZEVEDO MAIA, nascido por volta do ano de 1752, foi casado com JOSEFA MARIA DO SACRAMENTO. Conforme assento lavrado nos livros paroquiais da Freguesia do Seridó, faleceu aos vinte e dois dias do mês de fevereiro de mil oitocentos e vinte e oito, em decorrência de moléstia interior, tendo recebido todos os sacramentos da Igreja. Contava, então, setenta e cinco anos de idade. Seu corpo foi sepultado na Capela da Conceição, de grades acima, envolto em mortalha branca, sendo solenemente encomendado pelo Padre Manoel Teixeira da Fonseca, com licença do ordinário. O respectivo termo foi firmado pelo vigário Francisco de Brito Guerra, para que constasse nos registros eclesiásticos. Sua esposa, JOSEFA MARIA DO SACRAMENTO, sobreviveu-lhe por alguns anos. Veio a falecer aos quatro dias do mês de novembro de mil oitocentos e quarenta e quatro, na condição de viúva de José de Azevedo Maia, acometida de estupor, contando cerca de oitenta anos de idade. O óbito ocorreu sem que lhe fosse possível receber os sacramentos, e seu cadáver foi sepultado na Capela da Conceição, igualmente envolto em branco, tendo sido encomendado pelo Padre Manoel Teixeira da Fonseca, de licença do ordinário, conforme consignado no respectivo assento paroquial.




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