1730-1739

 


Joana Maria dos Santos contraiu matrimônio com o capitão-mor Manoel Gonçalves Melo, natural da freguesia de Santa Maria da Água Santa, da cidade do Porto, no Reino de Portugal. Proprietários de vastas extensões de terras e de diversas fazendas, fixaram residência principal no Sabugi, do qual Manoel Gonçalves se tornou senhor e figura central. Nascido por volta de 1731, Manoel Gonçalves Melo desposou Dona Joana pelos meados da década de 1760 e, a partir de 1769, já figurava como alferes, galgando sucessivamente todos os postos da hierarquia militar da Cavalaria Miliciana no Seridó. Com o falecimento de seu sogro, assumiu a liderança e a proteção da numerosa parentela, destacando-se entre os concunhados o capitão Manoel Teixeira da Fonseca e Bartolomeu dos Santos, bem como o sobrinho por afinidade, o coronel Antônio da Silva e Souza. À orientação espiritual da família dedicaram-se religiosos oriundos da própria linhagem, entre eles os reverendos Manoel Teixeira da Fonseca, Ignácio Gonçalves Melo, Fabrício de Porciúncula Gameiro, José Gonçalves Melo e Luiz Teixeira da Fonseca.

As primeiras gerações dos Melo, em geral, possuíam elevado grau de instrução para o contexto sertanejo de então. A redação própria e a caligrafia esmerada eram traços frequentes entre os Melo, os Teixeira e outros ramos aparentados, indícios de formação cultural sólida. No que concerne ao patrimônio, o capitão-mor deixou bens avaliados em 5.001$420 réis, com dívidas que alcançavam 3.606$179 réis, restando liquidez de apenas 1.395$241 réis. Não sendo homem de hábitos dissipadores, atribui-se tal diminuição patrimonial à moléstia crônica de que padeceu e que o levou à morte, aos oitenta e cinco anos de idade, sendo sepultado na Matriz do Seridó em 21 de novembro de 1816. Dona Joana Maria faleceu antes dele, em 17 de fevereiro de 1794, no Teixeira, em terras de sua data de sesmaria Tauá, sendo sepultada na Matriz de Santana do Seridó dois dias depois, encomendado o corpo pelo reverendo padre coadjutor Ignácio Gonçalves Melo.

Os irmãos Gonçalves Melo, inicialmente, estabeleceram-se no Recife. João, o primogênito, já era casado; Antônio encontrava-se noivo no Porto; e Manoel, o caçula, permanecia solteiro. Ao se tornarem senhores das terras do Sabugi, Piató e Piatozinho, transferiram-se para o Seridó com o propósito deliberado de povoar aquelas paragens, acomodar seus rebanhos e implantar casas, currais e lavouras com recursos próprios. Cumpridos tais intentos, Manoel apaixonou-se por uma jovem cabocla, de beleza singular, natural da região, o que provocou forte oposição de seus irmãos. Após intensas deliberações, decidiram regressar a Pernambuco, com a intenção de devolver os dois jovens ao Reino de Portugal, permanecendo João no Recife, dedicado ao comércio.

Nesse contexto, durante estada na Fazenda Lajes, Domingos Alves dos Santos, português estabelecido na região, tomou ciência dos acontecimentos e, com prudência, adquiriu de Antônio as terras do Piató. Em seguida, propôs a Manoel Gonçalves Melo o casamento com sua filha Joana Maria, desde que houvesse concordância unânime dos irmãos, evitando-se, assim, prejuízos maiores à família e assegurando a continuidade do projeto colonizador. Aceita a proposta, os irmãos partiram: Antônio seguiu para o Porto, João permaneceu no Recife, e Manoel retornou ao Seridó, onde contraiu matrimônio com Joana Maria dos Santos. Dessa união originou-se vasta descendência, espalhada por várias regiões do Brasil, mantendo, contudo, o Sabugi como núcleo identitário e referencial.

Do casal Manoel Gonçalves Melo e Joana Maria dos Santos nasceram numerosos filhos. Ignácio Gonçalves Melo, nascido por volta de 1767, ordenou-se presbítero secular do hábito de São Pedro e exerceu o cargo de coadjutor pró-pároco da freguesia de Santana do Seridó, sendo posteriormente substituído pelo padre Manoel José Fernandes, por volta de 1826, passando então a assistir espiritualmente as populações de Serra Negra, São João do Príncipe e Sabugi. Homem estimado por parentes e fregueses, equilibrado no caráter e jovial no trato, deixou patrimônio razoável, inventariado por testamento. Faleceu de diabetes aos setenta e cinco anos, sendo sepultado solenemente na Matriz de Santana do Seridó em 15 de dezembro de 1842.

José Gonçalves Melo, também sacerdote, dedicou-se ao pastoreio espiritual no Oratório do Sabugi. Segundo registros de autores como Dom Adelino Dantas e Olavo de Medeiros Filho, padecia de crises nervosas, vindo a falecer em janeiro de 1819, deixando poucos bens e vultosas dívidas. Entre seus haveres constavam terras no Sabugi e no Olho d’Água das Melancias, um escravo coxo chamado Bernardo e um velho bacamarte avaliado em 3$000 réis. A tradição familiar atribui-lhe descendência por bastardia, cujos ramos teriam migrado para o Piauí e outras regiões dos sertões setentrionais.

Joana Maria da Encarnação, também conhecida como Joana Baptista dos Santos, casou-se em 28 de setembro de 1789 com o português Joaquim Barbosa de Carvalho, natural da freguesia de Villar do Veiga, no Arcebispado de Braga, filho de João Carvalho e Roza Barbosa. O casal estabeleceu-se como proprietário na Fazenda Bom Jesus, no Sabugi. Dona Joana Maria faleceu em 23 de fevereiro de 1858, deixando testamento, enquanto seu esposo foi sepultado na Matriz do Seridó em 16 de agosto de 1832, aos setenta anos de idade, vitimado por diabetes.

Félix Gonçalves Melo contraiu primeiras núpcias com sua prima legítima Maria Manoela da Conceição, filha do capitão José Alves dos Santos e de Maria José do Nascimento, falecida à época do casamento, em 1796. Em segundas núpcias, casou-se em 10 de dezembro de 1820 com Izabel de Araújo Lima, viúva de Manoel Marques de Souza. Maria Bernarda da Apresentação, nascida por volta de 1772, desposou seu primo legítimo Rodrigo Gonçalves Melo, natural da freguesia de Santa Maria da Água Santa, recebendo-se em 11 de agosto de 1807 no Oratório do Sabugi. Ela faleceu em 29 de outubro de 1810, de hidropisia, enquanto ele veio a óbito em 11 de fevereiro de 1841, aos sessenta anos.

Ana Maria dos Santos uniu-se a Anacleto Alves Gameiro, e Manoel Gonçalves Melo, o segundo desse nome, conhecido como tenente Melo do Sabugi, nascido por volta de 1777, sucedeu o pai na liderança familiar. Casou-se primeiramente em 26 de novembro de 1803 com Magdalena Maria Teixeira, falecida de parto em 1812, e, em segundas núpcias, em 27 de novembro de 1820, com Maria Madalena dos Santos. Homem abastado, possuía numerosos bens, terras extensas e onze escravos, falecendo de pleurisia em 20 de agosto de 1855, com setenta e oito anos de idade.

Joaquim Gonçalves Melo, nascido por volta de 1782, casou-se em 4 de agosto de 1805 com Ana Maria de Jesus, não deixando descendência, vindo a falecer em 7 de fevereiro de 1842. Seus bens incluíam terras no Tauá do Teixeira, doze cavalos, nove escravos e o próprio Sabugi.

A partir dessas gerações, desenvolveram-se múltiplos ramos familiares, interligando-se os Melo, Barbosa de Carvalho, Teixeira, Gameiro, Alves dos Santos, Santana, Araújo, Medeiros e outros, compondo uma complexa rede genealógica que marcou profundamente a história social, política e econômica do Seridó. Proprietários, militares, sacerdotes, vaqueiros e líderes locais, os descendentes dos Melo do Sabugi deixaram marcas duradouras na formação regional, sendo frequente que cargos públicos, chefias políticas e funções de prestígio recaíssem sobre membros dessa extensa parentela. Assim se delineia, per saecula, a trajetória de uma linhagem que se confunde com a própria história do Sabugi e do Seridó, onde sangue, terra e memória se entrelaçam em contínua sucessão.





Joana Batista da Encarnação, seridoense, nasceu por volta de 1746 e foi casada com o capitão Luiz Teixeira da Fonseca, português natural da cidade do Porto, nascido em torno de 1739. O casal foi proprietário e morador da Fazenda Angicos, situada em território que hoje integra o município de Jardim do Seridó, no Rio Grande do Norte. Além de exercer o cargo de juiz de órfãos, o capitão Luiz Teixeira da Fonseca gozava de prerrogativas próprias da nobreza colonial, conferidas pela política vigente à época. Grande fazendeiro, militar e político, mantinha estreitas ligações familiares e institucionais com o clero. É sabido que os alicerces da antiga sociedade portuguesa assentavam-se na lavoura e na espada, tendo no clero e na política os sustentáculos indispensáveis ao funcionamento do Reino. Segundo Manoel Dantas e outros informantes, a família Teixeira, por meio de seus diversos membros, manteve representação contínua no Senado da Câmara da Vila Nova do Príncipe e na Câmara Municipal do Seridó ao longo de várias décadas. Dom José Adelino Dantas e Olavo de Medeiros Filho registram que Luiz Teixeira da Fonseca faleceu vítima de moléstia maligna na Fazenda Angicos, aos vinte e nove de dezembro de 1816, contando setenta e sete anos de idade, enquanto Joana Batista da Encarnação veio a falecer no Caicó, em consequência de congestão, já em idade avançada, com oitenta e cinco anos, a quinze de maio de 1831, embora nos autos do inventário conste, por equívoco, a data de quatorze de maio.

No espólio processado em 1817, figuram numerosos bens móveis e de raiz, entre os quais se destacam nove escravizados, três quartos de légua de terras na Fazenda Angicos, duas partes de terras no Sítio das Lajes, sendo uma delas adquirida de Fidélis de Souza Marques, além de parcelas de terras nos lugares denominados Raposa e Verdes. O valor total do monte-mor alcançou a quantia de 3.637$615 réis, cabendo a cada filho herdeiro a importância de 220$994 réis.

Do matrimônio nasceram diversos filhos. Joana Maria de França foi casada com Boa Ventura Fernandes da Silva e, em maio de 1831, já se encontrava falecida, sem deixar descendência. Maria Teixeira da Fonseca contraiu matrimônio com Domingos Teixeira de Araújo, também conhecido como Domingos Alves do Nascimento, filho do capitão Antônio Alves dos Santos e de Tereza de Jesus, natural da Paraíba, ficando a descendência relacionada sob o nome do marido. Manoel Teixeira da Fonseca seguiu a carreira eclesiástica como presbítero secular do hábito de São Pedro, tendo sido criado e educado pelos tios e padrinhos, o capitão Manoel Teixeira da Fonseca e sua esposa Maria Alves dos Santos, também conhecida como Maria do Nascimento. Suas atividades sacerdotais tiveram início na freguesia de Santana do Seridó, estendendo-se posteriormente às de Acari e Jardim do Seridó, tendo como ponto de apoio a Fazenda Malhada d’Areia. Atuou com frequência na Capela e Matriz da freguesia de Conceição do Azevedo e exerceu intensamente o ministério das desobrigas em diversos núcleos familiares, como Quinquê, Luíza, Pau dos Ferros do Periquito, Marrecas, Riacho do Meio, Espírito Santo e Angicos. Figura de relevo na história eclesiástica do Seridó, foi amplamente referido nas obras de Manoel Dantas, Olavo de Medeiros Filho, Dom José Adelino Dantas, entre outros, dos quais se extrai que nasceu em 1773, ordenou-se por volta de 1795 e faleceu a dezoito de julho de 1864, em Jardim do Seridó, com noventa e um anos de idade e sessenta e nove de sacerdócio, em plena lucidez de espírito, deixando testamento em sua residência, sendo sua morte atribuída a uma indisposição gástrica.

No campo político, os Brito Guerra, apoiados pelos Medeiros e pelos Teixeira da Fonseca, lograram êxito, em ação liberal, na criação da denominada Vila do Jardim, alterando o curso histórico da antiga Conceição do Azevedo. Tal iniciativa provocou reação dos grupos conservadores, representados pelos Azevedo, Batista, Araújo e outros, desencadeando acirrada disputa na Assembleia Provincial, que se prolongou por mais de um ano. Apesar da resistência, prevaleceu a vitória do Partido Liberal do Império, adotando-se a denominação alusiva ao Sítio Jardim, de propriedade do capitão Caetano Dantas de Azevedo, conhecido como Caetano Quebra-Viola, embora não se tenha alcançado plenamente o objetivo político de descaracterizar a influência da família Azevedo.

Rosa Maria de França foi casada com Gonçalo Alves Gameiro, filho do capitão José Alves dos Santos e de Maria José do Nascimento, natural de Olinda, ficando a descendência registrada sob o nome do marido. José Teixeira da Fonseca destacou-se como seridoense, político e militar de valor, tendo sido, em 1814, membro da Câmara da Vila do Príncipe e capitão do Regimento de Ordenanças, sucedendo ao pai e ao tio. Exercendo liderança familiar, aglutinou vasta descendência dos Alves dos Santos e, por décadas, manteve predominância política regional. Como integrante do Paço do Conselho da Vila do Príncipe, participou de decisões relevantes, inclusive no auto de proposta para capitão-mor que resultou na escolha de Manoel Medeiros de Rocha, em vinte de julho de 1814. Na carreira militar, permaneceu como capitão de cavalaria durante grande parte da década de 1820, surgindo como tenente-coronel nos anos seguintes, quando comandou um batalhão de noventa homens destinado a combater o movimento sedicioso liderado por Joaquim Pinto Madeira, tendo como auxiliar imediato o major Manoel Vieira da Costa. Convocada a elite social do Seridó, houve resistência de famílias que viam o serviço militar como função destinada aos negros. O coronel, contudo, incorporou parentes e filhos ao batalhão, além de homens de confiança, entre eles o negro Lourenço Tavera. Destacou-se, nesse contexto, a atuação de Tomás Pereira de Araújo, que, após feitos de guerra no Ceará, adquiriu as fazendas Viração, Carcará e Saco Redondo com os frutos materiais de sua bravura. José Teixeira da Fonseca casou-se com Teodora Maria de Jesus, filha de José Gomes de Melo e Maria da Conceição da Penha, em cinco de julho de 1800, vindo a falecer a vinte de setembro de 1844. Deixou patrimônio expressivo em casas, terras e nove escravizados, embora gravado por dívidas consideráveis, entre elas valores devidos ao Hospício de Nossa Senhora da Soledade, à Matriz de Santana do Seridó e ao padre Francisco Justino Pereira de Brito.

João Teixeira da Fonseca casou-se em dezessete de abril de 1801, na Fazenda Angicos, com Joana Maria da Silva, filha de João Gualberto Roza e Andreza Maria da Silva, falecendo a seis de outubro de 1831. Magdalena Maria Teixeira contraiu matrimônio com Manoel Gonçalves Melo, filho do capitão-mor Manoel Gonçalves Melo e de Joana Maria dos Santos, estando a descendência relacionada sob o nome do marido. Antônio Teixeira da Fonseca, tenente do Corpo de Milícia, casou-se a três de novembro de 1811 com Ana Joaquina dos Santos, filha de Joaquim Barbosa de Carvalho e Joana Maria da Encarnação, e Domingos Teixeira da Fonseca, dotado de bela caligrafia, ainda vivia em 1831.

A partir desses ramos desenvolveu-se numerosa e complexa descendência, amplamente documentada nos registros paroquiais, inventários e tradições familiares do Seridó, formando uma extensa teia genealógica que entrelaça os Teixeira da Fonseca a inúmeras famílias de projeção regional, cujos nomes, datas e alianças matrimoniais preservam a memória social, política e econômica de uma das mais influentes linhagens da história seridoense.


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Padre João Pereira Monteiro Sarmento, nascido em 1733, figura que, segundo a tradição oral, teria padecido de perturbações mentais, teve seu falecimento registrado no livro próprio do arquivo paroquial do Caicó, constando do termo que, aos oito dias do mês de março de mil setecentos e noventa e três, na Capela da Serra Negra, filial da matriz, foi sepultado o reverendo padre João Pereira Monteiro, falecido no mesmo dia, com sessenta anos incompletos, tendo recebido todos os sacramentos da Santa Madre Igreja, sendo envolto sacerdotalmente e sepultado do cruzeiro para cima, solenemente encomendado pelo celebrante, lavrando-se o respectivo assento que foi assinado por José Antônio Caetano de Mesquita. Registra-se ainda a existência do padre Fernando Pereira Monteiro, a respeito de quem a tradição, mencionada por Vergniaud, informa descender a família Fernandes, estabelecida em Pombal, no atual território da Paraíba.


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O português Antônio Garcia de Sá, segundo a tradição familiar natural dos Açores, foi casado com Maria Dornelles Bittencourt e faleceu aos vinte e sete dias de agosto de mil setecentos e cinquenta e quatro, conforme indicam os autos de seu inventário, arquivados no Primeiro Cartório Judiciário do Caicó e processados no ano seguinte. Residiu na fazenda Quimporó, situada no riacho do Salgado, também denominado Quinquê, em área compreendida entre os atuais municípios de Cruzeta, Acari e São Vicente, propriedade que adquirira em mil setecentos e trinta e sete, mediante escritura lavrada aos vinte e cinco de agosto daquele ano, comprada a Dona Maria Vidal da Costa, viúva de Roque do Pilar, pela quantia de duzentos mil réis. A fazenda Quimporó possuía uma légua e meia de extensão e nela se encontrava uma morada de casa térrea de taipa, coberta de telhas, com quatro portas e duas janelas, avaliada no inventário em trinta e cinco mil réis, enquanto a própria fazenda foi avaliada em trezentos mil réis, à época em que a oitava de ouro, pesando três gramas e quinhentas e oitenta e nove milésimos, valia mil e quatrocentos réis. No mesmo inventário foram relacionados expressivos bens pecuários, incluindo cento e três vacas, vinte e uma novilhas, trinta e uma garrotas, quarenta e quatro garrotes machos, trinta e seis bezerros machos, vinte boiotes, seis novilhos, três bois mansos e mais sessenta cabeças de gado de toda sorte, além de referências a terras situadas no Jucurutu, na ribeira do Acaracu, atualmente denominada Acaraú, em território cearense. Do matrimônio de Antônio Garcia de Sá com Maria Dornelles Bittencourt nasceram numerosos filhos. A primogênita, Ana do Sacramento, nasceu por volta de mil setecentos e vinte e três ou pouco antes, encontrando-se já casada em mil setecentos e cinquenta e cinco com José do Paraíso, conforme declarado nos autos do inventário paterno. Maria do Nascimento, nascida por volta de mil setecentos e vinte e quatro, casou-se com Cosme Soares Pereira, descendente de Tomaz de Araújo Pereira, residindo o casal em mil setecentos e oitenta e oito na fazenda Riacho da Várzea, no Acari, vindo Maria a falecer aos vinte e cinco dias de fevereiro de mil oitocentos e dez, com oitenta e seis anos de idade, sepultada na Capela do Acari, envolta em hábito de São Francisco. Antônio Garcia de Sá Barroso, nascido por volta de mil setecentos e vinte e cinco, casou-se com Ana Lins de Vasconcelos, filha de Alexandre Rodrigues da Cruz e Vicência Lins de Vasconcelos, tendo alcançado o posto de coronel de milícias, assentando praça em mil setecentos e noventa e falecendo em mil setecentos e noventa e três, conforme registros do Regimento Miliciano da Vila do Príncipe; construiu a casa-grande da fazenda Serrote, além do riacho da Juliana, cujos vestígios ainda subsistem nas proximidades do Acari, e foi sepultado aos vinte dias de maio de mil setecentos e noventa e três, com sessenta e oito anos de idade, no corpo da igreja da Capela de Nossa Senhora da Guia do Acari. José Garcia de Sá, nascido entre mil setecentos e vinte e seis e mil setecentos e vinte e sete, já se encontrava casado em mil setecentos e cinquenta e cinco, residindo nas terras do Jucurutu, na ribeira do Acaracu. Ana Dornelles de Bittencourt, nascida por volta de mil setecentos e vinte e oito, permanecia solteira à época do inventário paterno. João Garcia de Sá Barroso, nascido por volta de mil setecentos e vinte e nove, solteiro em mil setecentos e cinquenta e cinco, contraiu primeiras núpcias com Helena de Araújo Pereira, filha de Tomaz de Araújo Pereira e Maria da Conceição de Mendonça, segundas núpcias com Maria Madalena de Castro, e, já viúvo, terceiro matrimônio com Maria de Jesus de Vasconcelos, filha de José Fidélis e de Inácia do Espírito Santo, casamento celebrado aos quinze dias de fevereiro de mil setecentos e noventa, quando João Garcia contava cerca de sessenta anos de idade; faleceu aos quatro dias de março de mil setecentos e noventa e cinco, na Capela de Nossa Senhora da Guia do Acari, tendo sido erroneamente registrada sua idade como cinquenta e oito anos, quando na realidade contava sessenta e seis, residindo desde o primeiro casamento na Fazenda São Pedro. Teresa de Jesus, nascida por volta de mil setecentos e trinta, contava vinte e cinco anos em mil setecentos e cinquenta e cinco. Inácia Dornelles Bittencourt, nascida entre mil setecentos e trinta e um e mil setecentos e trinta e seis, já se encontrava casada em mil setecentos e cinquenta e cinco com José Gomes de Melo. É provável que os filhos mais antigos de Antônio Garcia de Sá tenham nascido ainda nos Açores, enquanto os mais novos, a partir da aquisição da fazenda Quimporó em mil setecentos e trinta e sete, já o tenham sido em terras do Seridó. Ana Maria, nascida por volta de mil setecentos e trinta e sete, tinha dezoito anos em mil setecentos e cinquenta e cinco. Helena do Rosário de Bittencourt, nascida por volta de mil setecentos e trinta e oito, com dezessete anos à época do inventário, casou-se aos vinte e oito dias de julho de mil setecentos e cinquenta e seis com José de Morais Valcácer, filho do coronel João Velho Barreto, vindo este a falecer em mil oitocentos e onze, aos oitenta e três anos, sepultado na matriz. Por fim, Francisca do Carmo, nascida por volta de mil setecentos e trinta e nove, casou-se aos trinta dias de agosto de mil setecentos e cinquenta e seis com Antônio Ferreira de Macedo, também referido como de Mendonça, filho de Manoel Ferreira de Macedo e de Ana dos Prazeres de Mendonça, conforme certidão extraída dos livros matrimoniais da freguesia de Santana, encerrando-se, assim, um vasto e expressivo tronco genealógico de forte relevância para a história social e fundiária do Seridó setecentista.


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No decurso da terceira década do século XVIII, chegaram ao Brasil dois irmãos e um primo, oriundos do Reino de Portugal. Um dos irmãos estabeleceu-se na Bahia, onde deixou numerosa descendência; o primo fixou residência no Ceará, igualmente constituindo família; o outro irmão, Antônio Fernandes Pimenta, natural da Vila de Faral, na região do Douro, veio para o Brasil já casado com Joana Franklina do Amor Divino, estabelecendo-se inicialmente na cidade de Nossa Senhora das Neves, na Paraíba. Dedicou-se à atividade mercantil, tornando-se figura bastante conhecida nos sertões da Paraíba e do Rio Grande do Norte.

Segundo relato de Nonato Mota, citado por Felipe Guerra, a rivalidade então existente entre brasileiros e portugueses levou Antônio Fernandes Pimenta a retirar-se para o Recife, viajando sua esposa em avançado estado de gravidez. Durante a travessia, a bordo do navio Dom José, Joana Franklina deu à luz um menino, vindo a falecer poucas horas após o parto. A criança foi entregue aos cuidados de sua tia, conhecida como Joaninha, sendo batizada com o nome de João, nascido pouco depois do ano de 1760. Após algum tempo residindo no Recife, Antônio Fernandes Pimenta transferiu-se para o Brejo de Areia, na Paraíba, onde contraiu segundas núpcias com Maria José da Silva, pertencente à família dos Casados.

Posteriormente, deslocou-se para o Panema, território correspondente ao atual município de Augusto Severo, no Rio Grande do Norte, onde adquiriu uma fazenda de criação de gado que passou a denominar-se Riacho do Pimenta. Ali faleceu em idade avançada. A tradição oral atribui-lhe ascendência judaica e explica a origem do cognome Pimenta pela intensa coloração avermelhada de seu rosto, descrito como “vermelho como uma pimenta”.

Do matrimônio com Joana Franklina do Amor Divino nasceram sete filhos, não sendo conhecidos, com precisão, os descendentes havidos do segundo casamento com Maria José da Silva. Entre os filhos do primeiro enlace, destaca-se José Fernandes Pimenta, considerado o primogênito, nascido por volta de 1735, natural de Mamanguape, na Paraíba. Casou-se com Josefa Maria da Conceição, também paraibana. O casal residiu inicialmente no Riacho do Pimenta, depois em São Miguel, na freguesia do Açu, transferindo-se em seguida para o Sabe Muito, na freguesia do Apodi, e, por fim, para o Engenho Paó, no Brejo de Areia. Ambos faleceram em idade avançada.

Teófilo Guerra, citado por seu irmão Felipe Guerra, relata episódio emblemático da probidade de José Fernandes Pimenta, destacando sua relação de confiança com Gregório Gouthino, proprietário da fazenda Mulato, em Caraúbas, que lhe confiou a administração de seus bens antes da grande seca de 1791 a 1793. Extinta a fazenda em razão da estiagem, José Fernandes retirou-se para o Paó, onde veio a falecer. Narra-se que, ao morrer subitamente numa estrada, foi encontrado portando consigo todo o numerário destinado ao pagamento de uma dívida, fato que consagrou sua reputação de homem honrado e rigorosamente pontual em seus compromissos.

Segundo J. Epitácio Fernandes, em estudo sobre a Fazenda Sabe Muito, José Fernandes Pimenta adquiriu aquelas terras em 1775, ali se fixando com a família. Casado com Josefa Maria da Conceição, teve quatorze filhos, a partir dos quais se iniciou o povoamento, o desbravamento e a prosperidade da referida fazenda. Vestígios da antiga residência ainda eram visíveis às margens do riacho homônimo. Em virtude da grande seca de 1791 a 1793, retirou-se com a esposa para o município de Areia, na Paraíba, onde ambos faleceram, conforme informação transmitida pelo genealogista Luiz Antônio Pimenta.

Registros do Regimento Miliciano da Vila da Princesa, hoje Açu, conservados no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, confirmam que José Fernandes Pimenta assentou praça em 27 de julho de 1789, com cinquenta e quatro anos de idade, permitindo inferir seu nascimento no ano de 1735. Dentre seus filhos, destacam-se Antônio Fernandes Pimenta, que se casou com Francisca Romana do Sacramento e deu origem à chamada Família do Sabe Muito; Antônia Maria de Jesus, casada com o tenente Manoel João de Oliveira; Maurício, fundador da família conhecida como Pelo Sinal; João Fernandes, nascido em 1765; Bento Fernandes Pimenta, nascido em 1772; Cosme Damião Fernandes, casado com Luiza Mendes da Silva; o padre João Francisco Fernandes Martins; Francisco Lourenço Fernandes Martins; Maria de Jesus Martins, conhecida por Nanan; e Ana Teresa da Consolação, casada com José Joaquim de Oliveira e Melo.

Outro filho de Antônio Fernandes Pimenta foi André José Fernandes, que se casou em primeiras núpcias com Ana Francisca do Sacramento, de quem teve uma filha, Felícia Fernandes Pimenta. Em segundas núpcias, casou-se com Luiza Maria da Encarnação, filha de Manoel da Anunciação e Lira e Ana Filgueira de Jesus. Conforme notas do Desembargador Felipe Guerra, o casal viveu na fazenda Adquinhon, pequeno afluente do Upanema, separando-se posteriormente em razão de desavenças conjugais. Luiza, grávida de Manoel José Fernandes, suportou vida difícil, falecendo por volta de 1810, sendo evocada por Dom José Adelino Dantas como exemplo de esposa e mãe sertaneja mártir do dever. André José Fernandes teria falecido em 1837.

Do referido casal nasceu Cosme Damião Fernandes, conhecido como Major Cosme, nascido em 1799, proprietário da fazenda Limoeiro, no município de Caicó, onde residiu. Casou-se com Isabel Maria de Araújo, filha de Felipe de Araújo Pereira e Josefa Maria do Espírito Santo. Faleceu em 1851, vítima de sarampo. Outro filho foi Manoel José Fernandes, nascido em 1800, que se ordenou sacerdote em 1823, tornou-se vigário colado de Caicó, visitador apostólico das províncias do Rio Grande do Norte e Paraíba, deputado provincial por nove legislaturas e figura de grande relevo político e religioso, falecendo em 10 de fevereiro de 1858.

Entre os descendentes de Antônio Fernandes Pimenta figuram ainda Manoel Fernandes Pimenta, casado com Manoela Dornelles de Bittencourt; Antônio Fernandes Pimenta, casado com Josefa Maria da Encarnação; Rita, Romana de Jesus Maria, Josefa Maria da Purificação, Cosme Soares Pimenta, Maria de Jesus, João Francisco Fernandes Pimenta, nascido a bordo do navio Dom José; Luzia; Antônio Fernandes Pimenta, nascido em 1789; João Francisco Fernandes Pimenta, nascido em 1790, personagem célebre do sertão, autor de versos satíricos e protagonista de episódios políticos relevantes do período pós-revolucionário de 1817; Joana Franklina do Amor Divino, casada com Antônio da Motta Ribeiro; Ana Cândida; José Alexandre Pimenta; Manoel Fernandes Pimenta; Joaquina; Damiana; e Maria.

Registra-se ainda uma filha de Antônio Fernandes Pimenta casada com o capitão-mor Sebastião Nobre de Almeida, da qual descenderam os Macambiras, sendo documentadas duas sesmarias requeridas por Sebastião Nobre no sertão do Curimataú, em 1777, conforme dados apresentados por Lira Tavares.

Esse vasto conjunto genealógico evidencia a profunda influência da família Fernandes Pimenta na ocupação territorial, na formação social, política e econômica do sertão da Paraíba e do Rio Grande do Norte, estendendo seus vínculos familiares por diversas regiões e consolidando uma linhagem de notável relevância histórica.




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