1720-1729

 ADRIANA DE HOLANDA DE VASCONCELOS (1723-1793) Sobre a genealogia e o patrimônio de Dona Adriana de Holanda e Vasconcelos, podemos dizer que insere-se no esforço de compreender, com rigor historiográfico e método genealógico, a formação de determinado grupo familiar ao longo do século XVIII. 

Figura proeminente na ribeira do Seridó, sua trajetória revela não apenas a acumulação e a administração de uma vasta fortuna em ambiente adverso, mas também a lógica de funcionamento das redes familiares, econômicas e simbólicas que estruturaram o poder regional. 

O exame minucioso de seu inventário de bens, lavrado no ano de 1793, constitui fonte primária de valor inestimável, permitindo lançar luz sobre a economia pecuarista, a cultura material, o cotidiano doméstico e as estratégias de sobrevivência das famílias dominantes em um território marcado pela instabilidade climática e pela centralidade da terra e do gado.

Dona Adriana de Holanda e Vasconcelos era filha de João da Rocha Moura (n.1655) e de D. Maria Madalena de Vasconcelos (n. 1670), conforme registra Antônio José Vitoriano Borges da Fonseca em sua Nobiliarchia Pernambucana

Desde a origem, portanto, encontrava-se inserida em um universo familiar dotado de prestígio, no qual o capital simbólico herdado se somava à capacidade de articular alianças matrimoniais estratégicas. Sua vida conjugal, marcada por três matrimônios sucessivos, ilustra com clareza o papel do casamento como instrumentum sociale de consolidação e expansão patrimonial no sertão colonial, onde as uniões extrapolavam o âmbito privado e se configuravam como pactos entre seus descendentes.

Seu primeiro casamento ocorreu por volta de 1747 ou 1748, em Igarassu, Pernambuco, com o Coronel Cipriano Lopes Galvão (1700-1763), filho de Cipriano Lopes Pimentel (1673-1721) e de Teresa da Silva (n. 1678). O esposo exercia o cargo de coronel da cavalaria de ordenanças da ribeira do Seridó, posição que o colocava entre o principal governante do Seridó de antanho. 

Dessa união nasceram seis filhos: Francisca Xavier de Moura, que se casou com José de Freitas Leitão; o Capitão-Mor Cipriano Lopes Galvão, o segundo do nome, unido a Vicência Lins de Vasconcelos; Ana Lins de Holanda, esposa de Miguel Pinheiro Teixeira; João Manoel Lopes Galvão, que faleceu solteiro; Manoel Lopes Galvão, e Teresa,  falecida em tenra idade. 

Após a morte do coronel, ocorrida por volta de 1763, Dona Adriana contraiu segundas núpcias com Félix Gomes Pequeno (n.1716), com quem teve um único filho, Félix Gomes Pequeno, o segundo, posteriormente casado com Ana Lins de Holanda, também referida em algumas fontes como Ana de Jesus. 

Seu terceiro e último matrimônio foi com Antônio da Silva e Souza (1738-1819), português cerca de quinze anos mais jovem, que lhe sobreviveu e assumiu o papel de inventariante de seus bens.

O falecimento de Dona Adriana ocorreu em 19 de março de 1793, na Capela de Nossa Senhora da Guia do Acari, conforme assentamento lavrado pelo cura Jozé Antônio Caetano de Mesquita. À época, contava “setenta annos pouco mais ou menos”, tendo recebido todos os sacramentos e sido sepultada envolta em hábito de São Francisco, rito que denota piedade religiosa e distinção social. 

Sua morte coincidiu com o auge da chamada “seca grande” de 1791 a 1793, uma das mais devastadoras que assolaram o sertão, cujos efeitos repercutiram de maneira profunda sobre a economia regional, a ponto de provocar episódios extremos, como o abandono do convento de São Bento na Paraíba e a sobrevivência de pessoas à base de ervas agrestes. 

Esse contexto climático adverso marcou de forma decisiva a composição de seu patrimônio no momento da abertura do inventário.

O processo de inventário teve início em 2 de agosto de 1793, na casa do Totoró de Cima, sendo conduzido pelo viúvo meeiro Antônio da Silva e Souza, sob a supervisão do juiz de órfãos licenciado Gonçalo Correia da Silva e do escrivão João de Souza e Silva, ambos da Vila Nova do Príncipe, atual Caicó. 

Foram nomeados como louvados Caetano Soares Pereira de Santiago e Manoel Rodrigues da Cruz, indicados pelos herdeiros Capitão-Mor Cipriano Lopes Galvão, filho do primeiro matrimônio, e Félix Gomes Pequeno Júnior, filho do segundo. O valor total do monte, acrescido das dívidas ativas, foi avaliado em 5:118$000 réis, quantia expressiva para o período, sobretudo quando se considera que uma vaca era avaliada, em média, em cerca de 7$000 réis. Os autos encontram-se arquivados no primeiro cartório judiciário de Currais Novos, sob o número de ordem três.

A composição do patrimônio inventariado revela a centralidade da terra, da pecuária na estrutura econômica da família. As propriedades de raiz estendiam-se por amplas áreas do sertão e do litoral potiguar, evidenciando a capilaridade territorial de seus interesses. 

No Totoró de Cima, na ribeira do Seridó, possuía terras de criar gado com três quartos de légua de comprimento e meia légua de largura, confrontando com propriedades de figuras igualmente proeminentes. Na Serra de Santana, também referida como Serra Azul, detinha datas de terras de plantar, algumas adquiridas por compra e outras por sesmaria, com dimensões que alcançavam três léguas de comprimento por uma de largura, formando um contínuo territorial de grande valor. 

Possuía ainda terras no sítio Cabeça do Cavalo, na ribeira do Cariri de Fora, bem como no sítio do Catolé, na lagoa de Guaraíra, no litoral, onde detinha parte das benfeitorias herdadas do primeiro marido.

As edificações incluíam moradas de casas de taipa na Serra de Sant'Ana, avaliadas em 5$000 réis, uma casa de fazer farinha com engenho e aviamentos no mesmo local, avaliada em 30$000 réis, uma morada de taipa no Acari, com sala ladrilhada, avaliada em 20$000 réis, e metade de uma casa no Totoró de Cima, avaliada em 21$000 réis após licitação. Esses imóveis evidenciam não apenas espaços de residência, mas também unidades produtivas integradas à economia doméstica e regional.

O patrimônio pecuário, embora severamente reduzido pela estiagem prolongada, ainda representava ativo relevante. Restavam apenas oito cabeças de gado bovino, entre bois de carro e de carga, vacas e um bezerro, avaliadas em 73$650 réis; vinte e três animais entre caprinos e ovinos, avaliados em 9$920 réis; e nove animais cavalares, entre cavalos e éguas de diversas pelagens, avaliados em 76$000 réis. 

A predominância de animais de trabalho e reprodução sugere uma estratégia consciente de preservação do núcleo do rebanho, visando à recomposição futura, si fortuna sineret.

Os bens móveis oferecem um retrato vívido da cultura material da vida seridoense. Dona Adriana possuía a expressiva quantia de 800$000 réis em dinheiro corrente, além de uma rica coleção de joias e objetos de ouro, entre os quais se evidenciam fivelas lavradas, relicários, pares de botões, cordões, gargantilhas, pentes, cadeados, colchas e itens de devoção, totalizando valores significativos. 

A prataria incluía espadim lavrado, fivelas de diversos tipos, esporas, colheres, garfos e um resplendor para imagem de Santa Ana, denotando distinção social e devoção religiosa. Utensílios domésticos de cobre, latão e estanho, ferramentas de ferro — como espingardas, machados, foices e enxadas —, mobiliário rústico de pau-d’arco, malas de couro, vestuário de luxo, como manto de seda negra, capotão de pano fino com detalhes em ouro e vestido de sarja preta, além de selas finamente trabalhadas e aprestos de montaria, completam o quadro de uma vida que conciliava ostentação, funcionalidade e religiosidade.

A descendência formalmente reconhecida no inventário confirma a centralidade de Dona Adriana como tronco de uma extensa família que se projetaram na história do Seridó, conforme detalhado em obras como Velhas Famílias do Seridó. Seus filhos e netos figuraram entre os continuadores do patrimônio e das alianças que sustentaram a orientação local nas décadas subsequentes, perpetuando o legado construído ao longo de sua vida.

Entretanto, a trajetória de Dona Adriana de Holanda e Vasconcelos não se reduz à enumeração de bens ou à sucessão de matrimônios, mas se afirma como expressão concreta da resiliência e da capacidade de adaptação das citadas pessoas diante das adversidades impostas pela natureza e pelas contingências históricas. 

Seu inventário transcende a condição de simples registro patrimonial, constituindo-se em verdadeiro speculum temporis, no qual se refletem a estrutura social, a economia, a cultura material e as estratégias de poder que moldaram o Seridó velho no final do período colonial.


 


INÁCIO DA SILVA DE MENDONÇA O testamento e o inventário de Inácio da Silva de Mendonça, lavrados em meados do século XVIII, constituem documentos de excepcional valor histórico, pois ultrapassam a mera função burocrática de regular a sucessão patrimonial e se convertem em fontes privilegiadas para a compreensão da vida social, econômica e familiar no sertão do Seridó, então integrante da Capitania do Rio Grande do Norte. 

Por meio das últimas disposições de um homem comum e da minuciosa enumeração de seus bens, é possível reconstituir aspectos do cotidiano caicoense, das redes de confiança pessoal, das práticas econômicas baseadas na pecuária e da profunda religiosidade que moldava a mentalidade colonial.

Inácio da Silva de Mendonça era natural da vila do Recife, filho legítimo de Antônio da Silva e Apolônia de Fraga. Casou-se com Dona Joana Batista Bezerra, filha do capitão José Mendes dos Santos, união da qual nasceu apenas uma filha, Luíza dos Santos, por volta de 1750. 

Proprietário de metade do sítio do Caicó e possuidor de um rebanho considerável para os padrões locais, Inácio inseria-se na estrutura agropastoril típica do sertão setecentista. A ausência de uma casa própria registrada em seu inventário, aliada ao fato de residir no sítio de São Miguel, pertencente ao capitão José Gomes de Melo, reforça a hipótese de que atuasse como vaqueiro a serviço desse proprietário, condição frequente em uma sociedade na qual a posse da terra nem sempre implicava residência fixa e o trabalho com o gado constituía o eixo central da economia regional. 

Foi justamente essa vida itinerante que o levou a adoecer longe de seu domicílio, circunstância que tornou urgente a formalização de suas últimas vontades.

O testamento foi ditado no engenho São João, propriedade do capitão-mor Nicolau Mendes de Vasconcelos, situado no termo da cidade de Nossa Senhora das Neves, na capitania da Paraíba do Norte. 

Encontrando-se gravemente enfermo e “temendo-se da morte”, Inácio buscou ordenar tanto os assuntos espirituais quanto as pendências materiais. O documento foi redigido em 2 de novembro de 1752 pelo padre Luiz Bezerra de Mello, aprovado formalmente em 8 de novembro pelo tabelião Faustino Teixeira, e antecedeu em poucos dias o falecimento do testador, ocorrido em 27 do mesmo mês. 

Conforme sua expressa vontade, foi sepultado na capela do engenho, envolto em hábito de São Francisco, símbolo de humildade e de esperança na intercessão espiritual.

O texto testamentário, preservado com a ortografia e a linguagem próprias do século XVIII, revela de imediato a centralidade da fé católica. A longa invocação inicial à Santíssima Trindade, à Virgem Maria, ao anjo da guarda e aos santos demonstra a preocupação com a salvação da alma e a adesão irrestrita aos dogmas da Igreja romana. 

O pedido para ser amortalhado com o hábito franciscano e a determinação para a celebração de missas de corpo presente e de capelas de missas pagas com a terça testamentária evidenciam a crença na eficácia dos sufrágios como meio de abreviar a permanência no purgatório, prática amplamente difundida na sociedade colonial.

No plano familiar e sucessório, Inácio declara não possuir filhos naturais e institui sua única filha legítima, Luíza dos Santos, como herdeira universal, após o pagamento das dívidas e a separação da meação da viúva e da terça. A escolha dos testamenteiros — o capitão Diogo Pereira da Silva, o alferes José Mendes dos Santos e o amigo Lopo Currado Garro — revela uma rede de relações baseada tanto no parentesco quanto na amizade e no prestígio social. 

Essas figuras, dotadas de autoridade local e laços de confiança, eram essenciais para garantir a execução fiel das disposições testamentárias em um contexto no qual a eficácia da justiça dependia fortemente do capital social dos envolvidos.

Grande parte do testamento é dedicada ao reconhecimento de dívidas e obrigações morais, o que ilumina o funcionamento da economia regionalizada. Inácio menciona débitos decorrentes de promessas religiosas, como as sete patacas devidas a Nossa Senhora da Morte, bem como compromissos assumidos com parceiros comerciais, cujos valores ele confia à palavra dos próprios credores. 

Essa confiança explícita na “consciência” alheia indica que muitas transações se realizavam sem registros escritos, apoiadas na honra pessoal e na reputação. O documento também detalha situações específicas, como a posse de animais recebidos em depósito ou doação, sua multiplicação e a necessidade de converter esses bens em missas para o verdadeiro dono, caso este não aparecesse, revelando a interpenetração entre economia, moral cristã e práticas de reparação espiritual.

Após o falecimento, instaurou-se o inventário post-mortem, iniciado em 21 de agosto de 1754 no juízo de órfãos da cidade do Natal, em razão de a herdeira ser menor de idade. O processo revela que Dona Joana Batista Bezerra já se encontrava em segundas núpcias com Antônio de Araújo Frazão, residente na Serra do Teixeira, e que assinava os autos por intermédio do capitão-mor Nicolau Mendes de Vasconcelos, indício de analfabetismo e, ao mesmo tempo, da permanência de vínculos com figuras de prestígio. 

O aparato jurídico mobilizado como juiz de órfãos, escrivão, inventariante, curador, tutor e avaliadores evidencia bem o funcionamento do sistema colonial de proteção aos bens dos menores, baseado na separação entre a gestão patrimonial e o cuidado pessoal do herdeiro.

Entre as decisões administrativas mais relevantes esteve a venda da metade do sítio do Caicó, autorizada judicialmente sob o argumento de que se tratava de terras não lavradias, destinadas apenas à criação de gado, o que inviabilizava sua divisão física. 

O imóvel foi alienado por trezentos mil réis, contribuindo para a composição do monte-mor do espólio. Após a quitação das dívidas, o patrimônio líquido foi partilhado segundo as normas vigentes, assegurando à viúva sua meação, reservando-se a terça para os encargos espirituais do falecido e destinando-se a legítima à filha.

A relação de bens inventariados traça um retrato inequívoco do modo de vida de Inácio da Silva de Mendonça. Sua riqueza concentrava-se fundamentalmente na terra e, sobretudo, no gado vacum e cavalar, que representavam a maior parcela do valor total do patrimônio. 

A expressiva quantidade de éguas parideiras, poldros e cavalos mansos indica uma economia orientada para a reprodução do rebanho e para o trabalho cotidiano do vaqueiro, enquanto os poucos móveis domésticos e a presença de apenas uma afrodescendente sugerem uma rotina seridoense livre de cativos, mesmo para o padrão da época, o Seridó não mergulhou nesse modelo dito econômico. 

Os instrumentos de montaria, como sela, freios etc., reforçam sua identidade profissional e a centralidade do cavalo como instrumento de trabalho e símbolo de status no sertão.

A leitura conjunta do testamento e do inventário permite, assim, transcender a frieza dos números e das fórmulas jurídicas para alcançar a experiência concreta de um sertanejo do século XVIII. Nesses documentos emergem as preocupações espirituais de um homem às vésperas da morte, o cuidado com a honra e com as dívidas, a confiança nas redes pessoais e a tentativa de assegurar o futuro da filha em uma sociedade marcada pela instabilidade. 

Ao mesmo tempo, eles oferecem um panorama valioso da estrutura social, das práticas econômicas e da mentalidade religiosa do sertão colonial, demonstrando como indivíduos aparentemente comuns foram agentes fundamentais na consolidação da sociedade brasileira. 

Portanto, o legado de Inácio da Silva de Mendonça, preservado em tinta e papel, continua a iluminar um mundo distante, mas essencial para a compreensão de nossa formação histórica.


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Antônio Pereira Monteiro, nascido por volta de 1728, provavelmente em Pernambuco, foi casado, segundo informa Juvenal Lamartine, com dona Maria Josefa da Conceição; contudo, de acordo com o que consta em antigo livro pertencente à Irmandade das Almas do Caicó, sua esposa seria Ana Maria de Jesus, divergência documental que permanece registrada nas fontes. Juvenal Lamartine assinala ainda que Antônio Pereira teve apenas uma filha, a qual faleceu na véspera do casamento, vítima da picada de uma jararaca, quando retornava de um banho, episódio que marcou profundamente a tradição familiar. Vergniaud L. Monteiro acrescenta que Antônio Pereira, pai dessa única filha, por saber que o futuro genro não era possuidor de boas qualidades morais, procurou dissuadi-la do intento de casar-se com ele, advertindo-a com franqueza de que, caso viesse a ser maltratada, o mataria, não logrando, contudo, afastá-la de sua resolução. Diante da firmeza da filha em manter o propósito matrimonial, Antônio Pereira fez um voto a Nossa Senhora do Ó, rogando-lhe que, como Mãe Verdadeira, chamasse a filha à sua presença antes do enlace, caso este lhe viesse a ser de más consequências, circunstância que a tradição associa de modo piedoso ao trágico desfecho ocorrido. Segundo informa ainda Vergniaud L. Monteiro, Antônio Pereira residia do outro lado do rio Espinharas, à margem direita, na fazenda Arapuá, propriedade que conserva até hoje o nome primitivo e onde atualmente se encontra a morada de Edison Faria. O termo de óbito de Antônio Pereira Monteiro encontra-se lavrado no livro de assentamentos da antiga Freguesia de Senhora Santana do Seridó, correspondente aos anos de 1789 a 1811, registrando que, aos vinte e seis dias do mês de outubro de mil oitocentos e um, faleceu na fazenda do Arapuá o sargento-mor Antônio Pereira Monteiro, branco, viúvo, com setenta e três anos de idade, acometido de vento, tendo recebido todos os sacramentos, sendo amortalhado em hábito do Carmo, encomendado pelo celebrante e sepultado aos vinte e sete do mesmo mês e ano na Capela da Serra Negra, filial da matriz, declarando-se expressamente que foi sepultado na capela-mor, conforme termo assinado pelo pro-parocho Fabrício da Porciúncula Gameiro. Registra-se, por fim, que Antônio Pereira Monteiro requereu sesmarias na Capitania da Paraíba, já devidamente descritas na parte deste estudo dedicada a seu irmão Manoel Pereira Monteiro.



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Francisco Pereira Monteiro, nascido entre os anos de 1729 e 1730, já provavelmente em Serra Negra, foi figura amplamente lembrada pela tradição histórica regional, sendo descrito por Juvenal Lamartine como aquele que realizou a grande doação do patrimônio da padroeira de Serra Negra, tendo falecido já bastante idoso, solteiro, destacando-se como grande criador de gado e afamado caçador de onças que abundavam em sua fazenda. Filho do capitão Manoel Pereira Monteiro, primeiro povoador e proprietário de Serra Negra, Francisco deixou fama duradoura como exímio caçador desses felinos, sendo conhecido como solteirão abastado e dono de vastas extensões de terras, pois sua fazenda media duas léguas de largura por três de comprimento, dedicando-se intensamente à criação de gado; as onças causavam sérios prejuízos ao rebanho, abatendo sobretudo garrotes e poldros, razão pela qual, segundo a tradição, mantinha grande número de touros para a defesa do gado mais novo, uma vez que o animal feroz evitava atacar malhadas onde houvesse touros. Em suas incursões de caça, Francisco Pereira Monteiro fazia-se sempre acompanhar de um escravo de sua inteira confiança, armado de zagaia, instrumento decisivo nas lutas corpo a corpo. Vergniaud L. Monteiro registra que Francisco havia implantado sua fazenda no local onde hoje se encontram as casas do sítio Conceição, sendo ainda visíveis, enterrados, os escombros de sua antiga vivenda. Conhecido também como Capitão-Mor Francisco Pereira Monteiro ou Francisco Pereira do Carapina, como lhe chamavam, consolidou sua ação juntamente com o pai Manoel Pereira Monteiro e seus irmãos, iniciando a ocupação efetiva da região com a perseguição aos índios e às onças. Segundo Câmara Cascudo, em uma de suas Acta Diurna, aos dezenove de janeiro de 1764, na fazenda Serra Negra, ribeira das Espinharas, termo da Nova Vila de Pombal, o tabelião Antônio Gonçalves de Melo lavrou escritura de doação de terras feita pelo capitão Francisco Pereira Monteiro, morador na fazenda Arapuá, em favor de Nossa Senhora do Ó, extremando com o doador na barra do Riacho Fundo, tudo para o lado do poente, sob a condição de que Francisco permanecesse administrador desses bens enquanto vivesse; esclarece Vergniaud L. Monteiro que essas terras se estendiam da barra do Riacho Fundo, onde hoje reside Bernardino Pereira de Brito, seguindo rio acima até o poço do Trapiá, permanecendo o doador como administrador vitalício. O mesmo autor refere-se ainda ao fato de Francisco Pereira Monteiro haver adquirido a fazenda Caicó, em virtude de o antigo proprietário não ter suportado os reiterados ataques dos índios, que promoviam correrias juntamente com os do Paulistas do Arraial dos Queimados, pertencentes à grande nação dos Tabajaras. No tocante às onças, colhem-se notas fidedignas que relatam virem elas em bandos famintos aos pátios das fazendas, matando bezerros, garrotes e novilhas e deixando em pedaços os restos das presas, motivo pelo qual Francisco Pereira Monteiro, associado a seu irmão Antônio Pereira Monteiro, fixou na fazenda Caicó, em cada ponta da estacada de aroeira, uma caveira de onça morta por suas próprias mãos. A ação da família Pereira contra os índios foi pronta e decisiva, pois, desbaratadas as tabas ou malocas, os indígenas buscaram o leito superior do rio Piranhas, atravessaram o território do Ceará e internaram-se no Piauí, e, uma vez contida a presença indígena e domada a sanha das onças, a nova colônia pôde ampliar com segurança suas atividades. O termo de falecimento de Francisco Pereira Monteiro encontra-se lavrado no livro de registros de óbitos da Matriz do Caicó, referente aos anos de 1789 a 1811, consignando que, aos sete dias do mês de junho de mil oitocentos e um, na Capela de Nossa Senhora do Ó da Serra Negra, filial da matriz, foi sepultado o adulto capitão Francisco Pereira Monteiro, branco, solteiro, falecido no dia seis do mesmo mês e ano, aos setenta e um anos de idade, sem ter recebido os sacramentos por haver falecido repentinamente, envolto em hábito de terceiro do Carmo, sepultado na capela-mor e solenemente encomendado pelo reverendo padre Inácio Gonçalves Mello, com licença do reverendo pároco, seu antecessor, padre José Gonçalves de Medeiros.

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