1700-1709
O Capitão-Mor Thomaz de Araújo Pereira (primeiro) foi comandante do Regimento de Cavalaria de Ordenanças da Ribeira do Seridó e estabeleceu residência na região por volta de 1720. Era natural de Viana, Portugal, e casado com Maria da Conceição de Mendonça, natural da Freguesia de Nossa Senhora das Neves, cidade da Paraíba.
O casal teve, entre outros, os seguintes filhos: José de Araújo Pereira, Thomaz de Araújo Pereira (segundo) e João Damasceno Pereira. Esses filhos casaram-se com as irmãs Thereza de Jesus Maria e Maria dos Santos Medeiros, filhas de Rodrigo de Medeiros Rocha (português natural da Ilha de São Miguel, Açores) e de Apolônia Barbosa de Araújo, que era filha de Pedro Ferreira das Neves e Custódia de Amorim Valcácer.
Outra filha de Thomaz (segundo) e Thereza foi mãe de Thomaz Lourenço e Maria Rosa, que eram primos legítimos. Thereza Maria José, também descendente, foi casada com Manoel Rodrigues da Cruz. Um dos filhos de Thomaz Lourenço e Maria Rosa recebeu o nome do avô.
Mesmo diante das lacunas documentais, certo modo, coexiste um resgate a memória genealógica e cultural de uma região onde passado e presente se entrelaçam, revelando a força das famílias que, geração após geração, ajudaram a forjar a alma sertaneja do Nordeste brasileiro.
A formação histórica e genealógica das velhas famílias dos sertões do Seridó inscreve-se num processo lento, árduo e profundamente marcado pelas condições naturais do lugar, pelas migrações portuguesas, pelos conflitos étnicos e pela construção de uma elite local que, ao longo de gerações, moldou a vida econômica, política, religiosa e cultural da região.
As primeiras referências documentais à presença luso-brasileira no território seridoense remontam à década de 1670, quando foi concedida ao capitão Francisco de Abreu de Lama e seus companheiros uma vasta sesmaria pelo capitão-general Alexandre de Souza Freire, abrangendo largas extensões ao longo do rio das Espinharas. Embora tal concessão não tenha obtido confirmação régia nem passado por demarcação formal, ela sinaliza o início do interesse colonial por uma região ainda inculta, pouco habitada e hostil, onde a ocupação efetiva demoraria a se consolidar.
Somente a partir da década de 1720 é que se pode falar em fixação familiar regular no Seridó, com continuidade genealógica identificável. Antes disso, as duras condições ambientais, agravadas por longos períodos de seca, como o registrado em 1723 pelo cronista Manoel António Dantas Corrêa, permitiam apenas a presença esparsa de vaqueiros solitários, foragidos da justiça, caboclos mansos e negros cativos, quase sempre sem a companhia de esposas e filhos. A consolidação do povoamento esteve diretamente ligada à expansão da pecuária, atividade que empurrou o homem para o interior, estruturou a economia regional e definiu os padrões de riqueza e prestígio social.
Os troncos familiares que vieram a constituir a elite seridoense tinham origens diversas, mas predominava entre eles o elemento português, especialmente oriundo do norte do Reino, com forte presença de naturais do Minho, do Douro, de Trás-os-Montes e, em menor escala, da Estremadura e dos Açores. Não era incomum, no Seridó antigo, afirmar-se a respeitabilidade de alguém dizendo que era “português legítimo de Braga”, expressão que traduz o prestígio social atribuído aos minhotos, considerados trabalhadores, austeros e portadores de boa procedência moral e familiar. Ao lado dessa herança lusa, a tradição oral preservou a memória de possíveis ascendências cristãs-novas ou marranas em algumas famílias, hipótese reforçada por traços físicos frequentemente associados à herança sefardita, visíveis em fotografias antigas e ainda reconhecíveis em fisionomias contemporâneas do sertão. Embora inexistam provas documentais conclusivas dessa presença judaica no Seridó, são recorrentes as referências a indivíduos tidos como oriundos da “gente da nação”, todos, entretanto, plenamente integrados à vida católica e às práticas religiosas da época.
A organização da vida social e genealógica esteve intimamente vinculada à estrutura eclesiástica. As freguesias de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó, de Senhora Sant’Ana do Seridó e de Nossa Senhora da Guia dos Patos constituíram os principais núcleos de registro sacramental, ainda que os livros paroquiais mais antigos tenham se perdido ou só comecem décadas depois dos primeiros povoadores. Essa lacuna documental obrigou os genealogistas a recorrerem a outras fontes, como os cartórios judiciais, especialmente os autos de inventários do século XVIII, que revelam laços familiares, bens, padrões de vida e redes de alianças. A análise desses documentos permitiu estabelecer médias geracionais, idades nupciais precoces e intervalos curtos entre os nascimentos, traços típicos de uma sociedade rural em expansão, dependente da força de trabalho familiar.
Nesse cenário emergem figuras fundadoras cujas histórias mesclam fatos documentados e tradição oral. Pedro Ferreira das Neves, conhecido como Pedro Velho, estabeleceu-se na Fazenda Cacimba da Velha, às margens do rio Quipauá, após casar-se com Custódia de Amorim Valcácer, tida como indígena, numa união que simboliza a miscigenação inicial do sertão. Seus descendentes, entre eles Antônia de Morais Valcácer, deram origem a ramificações familiares numerosas e influentes. Os irmãos açorianos Rodrigo de Medeiros Rocha e Sebastião de Medeiros Matos, cuja fuga de Portugal é atribuída, pela tradição, a perseguições inquisitoriais, também figuram entre os troncos mais relevantes, tendo se integrado à elite local por meio de casamentos estratégicos e exercido papel destacado na ocupação das ribeiras.
Entre os grandes patriarcas do Seridó destaca-se Tomaz de Araújo Pereira, português de Viana do Minho, homem de extraordinária compleição física, que chegou à região na terceira década do século XVIII e se tornou um dos mais prolíficos fundadores de linhagens. Capitão-mor e depois coronel, sua trajetória é marcada por episódios que revelam a rudeza e a coragem exigidas pela vida sertaneja, como a bravura de sua primeira esposa, Maria da Conceição de Mendonça, e as lendas em torno de seu segundo casamento. Seu neto homônimo, nascido por volta de 1765, apesar de limitada instrução formal, alcançou prestígio político notável, tornando-se o primeiro Presidente da Província do Rio Grande do Norte, figura de rija têmpera, força física extraordinária e fortuna expressiva, conforme atestam os registros de seu inventário.
Outras famílias igualmente importantes moldaram o tecido social seridoense. Os Dantas Corrêa, oriundos de Portugal e da Paraíba, produziram líderes militares e políticos, homens de voz potente, presença imponente e larga descendência. Os Medeiros Rocha, os Nóbrega, os Pereira Monteiro, os Garcia de Sá, os Alves dos Santos, os Azevedo Maia, os Lopes Galvão, os Rocha Gama, os Fernandes Pimenta e os Carneiro de Freitas compõem um vasto mosaico de histórias que entrelaçam desbravamento, fé, violência, educação e poder. Nessas narrativas surgem caçadores de onças, fundadores de capelas, padres de gênio áspero e grande cultura, mulheres de espírito dominador e coragem incomum, chefes políticos temidos e respeitados, comerciantes de reputação ilibada e personagens excêntricos que participaram de revoluções e conflitos armados.
A religiosidade ocupa lugar central nesse universo, não apenas como expressão de fé, mas como eixo organizador da vida social. Capelas erguidas em fazendas deram origem a povoados e cidades, enquanto a presença de numerosos sacerdotes nas genealogias revela a importância da Igreja como espaço de ascensão social e influência política. A educação humanística, especialmente através das aulas de latim fundadas por figuras como o Padre Francisco de Brito Guerra, transformou Caicó em centro intelectual do sertão, irradiando cultura e formando quadros que atuariam na administração imperial.
Ao longo de todo esse processo, a criação de gado permaneceu como o principal pilar econômico, determinando o ritmo da vida, o valor das terras e o prestígio das famílias. Os casamentos endogâmicos, frequentes entre primos e membros das mesmas linhagens, consolidaram alianças, preservaram patrimônios e reforçaram a coesão da elite local. Assim, a história das velhas famílias do Seridó não se resume a uma sucessão de nomes e datas, mas constitui um vasto painel humano, no qual se entrelaçam coragem e sofrimento, fé e ambição, tradição e adaptação, formando a base identitária de uma região que aprendeu a resistir às secas, às distâncias e ao isolamento sem jamais perder o sentido de pertencimento e continuidade histórica.
O português Antônio de Azevedo Maia foi casado com Josefa Maria Valcácer de Almeida e estabeleceu-se no Seridó, na fazenda da Conceição, em área que corresponde ao atual território do município de Jardim do Seridó. Segundo o genealogista paraibano Sebastião de Azevedo Bastos, Antônio era filho de José Antônio de Azevedo Maia e de Isabel Pereira Alves, enquanto Josefa Maria Valcácer de Almeida descendia de Paulo Gonçalves de Almeida e de Maria Valcácer de Almeida. Conforme já assinalado no estudo da família descendente de Pedro Ferreira das Neves, existiam laços de parentesco entre Josefa Maria Valcácer de Almeida e Custódia de Amorim Valcácer.
Não se conhece a data exata da chegada de Antônio de Azevedo Maia ao Seridó, tampouco os autos de seu inventário registram o momento em que adquiriu a parcela de terras na fazenda da Conceição. Pelo teor desses autos, depreende-se que se tratava de um pequeno proprietário rural, cujas terras foram avaliadas em 111$000, correspondendo a menos de meia légua de comprimento por uma de largura. Em 1796 foi processado o inventário de Josefa Maria Valcácer de Almeida, cuja partilha somente se efetivou após o falecimento de Antônio de Azevedo Maia, ocorrido em 1797, no curso daquele mesmo inventário.
Entre os bens deixados por Josefa Maria constava uma morada de casa térrea situada na fazenda da Conceição, com seis portas de mulungu e duas janelas, avaliada em 20$000, valor significativo para a época, quando a oitava de ouro, pesando 3,589 gramas, equivalia a 1$400. O inventário de Antônio de Azevedo Maia, por sua vez, revela patrimônio modesto, no qual figuravam, sob a rubrica de alfaias, algumas peças de vestuário que ilustram os hábitos simples da região e do período, tais como um capote de pano fino pardo, avaliado em 1$600; uma veste de ganga com calção do mesmo tecido, avaliada em 3$000; uma casaca velha de pano pardo, avaliada em 1$600; uma camisa velha de bretanha, avaliada em $320; um par de meias brancas grossas, avaliado em $160; e um estojo com cinco navalhas velhas, avaliado em $480.
O inventário de Antônio de Azevedo Maia encontra-se arquivado no 1º Cartório Judiciário do Acari, sob o número de ordem 10, iniciado em 1796 e concluído em 1797 em razão de seu falecimento. O termo de sepultamento registra que, aos trinta dias do mês de novembro de mil setecentos e noventa e seis, foi sepultado nesta matriz o Capitão Antônio de Azevedo Maia, viúvo, morador que fora na Conceição, falecido aos vinte e oito dias daquele mês, com cerca de noventa anos de idade, tendo recebido todos os sacramentos, sendo sepultado no corpo da igreja, envolto em hábito de Nossa Senhora do Carmo, com as cerimônias de estilo.

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A antiga Capela da Conceição, erigida por Antônio de Azevedo Maia, o segundo do nome, em sua fazenda Conceição do Azevedo, teve sua construção desenvolvida entre os anos de 1790 e 1808 e pertencia à jurisdição da Freguesia da Gloriosa Senhora Santana do Seridó, no Caicó. Posteriormente, foi elevada à condição de matriz com a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, mediante a lei provincial nº 337, de 4 de setembro de 1856, marco institucional que deu origem ao município de Jardim do Seridó. Ainda subsiste a casa onde residiu Antônio de Azevedo Maia, fundador da capela e figura central na formação urbana local, situada na atual Avenida Dr. Fernandes, nº 107, edificação histórica cujo restauro tem sido objeto de atenção por parte da Fundação José Augusto, que pretende restituir-lhe o estilo primitivo, bastante alterado por reformas posteriores. Não há registros fotográficos, retratos pictóricos autênticos ou quaisquer imagens contemporâneas que representem Antônio de Azevedo Maia, nascido em 1706, na região do Minho, em Braga, Portugal, e falecido em 28 de novembro de 1796, aos noventa anos de idade. Nenhuma fonte histórica conhecida menciona a existência de retratos produzidos em vida, o que se explica pelo próprio contexto tecnológico do período, uma vez que a fotografia somente se difundiria no Brasil a partir da segunda metade do século XIX, décadas após a sua morte. Assim, toda e qualquer eventual representação visual associada à sua figura só poderia ter sido concebida posteriormente, com base em descrições orais, tradições familiares ou idealizações artísticas, sem que, até o presente momento, tenha sido identificado qualquer exemplar desse tipo em arquivos públicos, acervos privados ou bases genealógicas digitais.
Apesar da ausência de imagens, os dados genealógicos e históricos referentes à trajetória de Antônio de Azevedo Maia são consistentes e bem documentados. Reconhecido como o patriarca da linhagem Azevedo Maia no Seridó, ele chegou ao sertão nordestino por volta das décadas de 1725 ou 1730, integrando o amplo movimento de interiorização promovido por famílias oriundas do litoral e do Reino de Portugal. Influenciado por seu tio, o capitão Pedro da Costa Azevedo, Antônio estabeleceu-se inicialmente na Paraíba, onde, em 1730, contraiu matrimônio com Josefa Maria Valcácer de Almeida Azevedo. Impulsionado pelo espírito desbravador que marcou sua geração, transpôs a Serra da Borborema e fixou-se na ribeira do Seridó, então uma vasta fronteira de ocupação, onde fundou a Fazenda Conceição do Azevedo, núcleo originário do que viria a se tornar o atual município de Jardim do Seridó, no Rio Grande do Norte.
Naquela região, Antônio de Azevedo Maia lançou as bases econômicas, sociais e familiares de uma extensa descendência, tornando-se figura central na formação da sociedade sertaneja local. Sua atuação como proprietário rural e chefe de família conferiu-lhe grande influência, razão pela qual a tradição historiográfica o consagrou como o “Patriarca do Seridó”. Faleceu na antiga Vila do Príncipe, atual Caicó, conforme registra o historiador e genealogista Sebastião de Azevedo Bastos em sua obra No Roteiro dos Azevedo e Outras Famílias do Nordeste, deixando um legado que se perpetuou tanto na memória coletiva quanto na configuração territorial e social da região.
A materialização mais expressiva desse legado encontra-se associada à Fazenda Conceição, marco fundamental da história de Jardim do Seridó. Foi nesse espaço que se ergueu a primeira residência do povoado, situada atualmente na Avenida Dr. Fernandes, nº 107, considerada o edifício mais antigo da cidade. Segundo o professor José Nilton de Medeiros, não há precisão absoluta quanto à data de sua construção, estimando-se que tenha ocorrido entre 1760 e 1790, com a finalidade de abrigar Antônio de Azevedo Maia Júnior, filho do patriarca, e sua família. As descrições de Olavo de Medeiros revelam uma edificação típica do sertão colonial, construída em taipa, com paredes reforçadas por tijolos, dotada de nove portas e sete janelas, todas providas de dobradiças de ferro, algumas delas já partidas à época em que foram descritas.
Foi nessa casa que Antônio de Azevedo Maia Júnior viveu ao lado de sua esposa, Micaela Dantas Pereira, constituindo uma numerosa família e consolidando a continuidade da linhagem no Seridó. Também ali veio a falecer, em 1º de maio de 1822, encerrando um ciclo que ligava diretamente aquela morada às origens da povoação. Poucos anos depois, em 1824, o local seria testemunha silenciosa de um episódio de relevância nacional: a passagem de Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, o Frei Caneca, líder da Revolução Pernambucana de 1817 e uma das figuras centrais da Confederação do Equador. Em seu diário de viagem, Frei Caneca registrou a chegada à então denominada Povoação da Conceição, mencionando a existência de uma igreja ainda inacabada e destacando a hospitalidade dos moradores, que lhe ofereceram farinha, milho, aguardente, queijo e abrigo, revelando a vitalidade econômica e social do lugar naquele período.
Com o passar do tempo, a antiga Casa da Fazenda Conceição sofreu profundas transformações. Do edifício original, restou apenas a fachada, preservada como testemunho material de um passado fundador. O interior foi completamente remodelado em estilo moderno para sediar o Centro de Leitura e o Telecentro da Câmara Municipal de Jardim do Seridó, espaços voltados ao atendimento da comunidade e à promoção do acesso ao conhecimento. Ainda assim, a memória histórica associada à casa permanece viva, sustentada tanto pela tradição oral quanto pela consciência patrimonial dos descendentes da família Azevedo, que reconhecem naquele imóvel um símbolo da formação do município e da identidade seridoense.
Diante da inexistência de imagens autênticas de Antônio de Azevedo Maia, a imaginação histórica permite conceber uma representação pictórica hipotética que traduza, de forma simbólica, sua importância. Em uma pintura de inspiração neoclássica, o patriarca poderia ser retratado já em idade avançada, por volta dos setenta anos, com porte robusto e expressão austera, refletindo a autoridade e a resiliência de quem desbravou o sertão e nele lançou raízes duradouras. Seu semblante, marcado pelo tempo, traduziria a experiência acumulada ao longo de décadas de trabalho e liderança. O vestuário, embora adequado ao clima do interior, revelaria a influência da moda da capital colonial mais próxima, o Recife, com casaco escuro de corte sóbrio, camisa de linho branco de gola alta e laço discreto, calças de tecido mais leve e botas de couro bem acabadas, denotando posição social e distinção.
Ao fundo, surgiria a Casa da Fazenda Conceição, com sua arquitetura simples e sólida, construída em taipa e tijolos, integrada à paisagem agreste da ribeira do Seridó. Sobre uma mesa rústica de madeira, repousariam um livro ou um mapa, símbolos da organização, da posse da terra e da visão estratégica que orientaram sua trajetória. A luz suave da composição destacaria a figura central, impondo-a sobre a paisagem e reforçando sua condição de fundador e líder. Intitulada “O Patriarca do Seridó”, tal obra não teria pretensão documental, mas funcionaria como síntese visual de um legado histórico que, embora privado de imagens reais, permanece firmemente ancorado na memória, nos documentos e na própria formação social do Seridó potiguar.
Rodrigo de Medeiros Rocha nasceu em 1709, na ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, então integrante do Reino de Portugal, onde era conhecido pelo nome de Rodrigo Afonso de Matos. Foi batizado em 26 de janeiro do mesmo ano, na Igreja de São Pedro da Ribeira Seca. Era filho de Manoel Afonso de Matos, alferes de patente, e de Maria de Medeiros Pimentel, unidos em matrimônio em 17 de junho de 1693, na referida freguesia. Inseria-se, assim, em uma linhagem familiar de raízes antigas e consistentes, descendendo, pelo ramo paterno, de Rodrigo de Matos e Catarina de Fontes, e, pelo materno, de Bartolomeu de Frias Camelo e Maria de Medeiros Rocha, troncos genealógicos que, mais tarde, marcariam profundamente a formação histórica do sertão nordestino. Seus pais faleceram na localidade de Lomba de Santa Bárbara, respectivamente em 7 de novembro de 1729 e em 27 de novembro de 1734, e seus avós maternos ali também se estabeleceram, sendo Bartolomeu casado desde 31 de março de 1674.
Por volta de 1739, Rodrigo deixou sua terra natal acompanhado do irmão Sebastião de Medeiros Matos, atravessando o Atlântico rumo ao Brasil. Trouxeram consigo, como lembrança do pai, uma bengala de cabo folheado a prata, objeto que a tradição afirma ter subsistido, por longos anos, em poder de moradores da região de São João do Sabugi, no atual Rio Grande do Norte. Os dois irmãos fixaram-se no sertão do Seridó, então pertencente à Capitania da Paraíba do Norte, região em processo inicial de ocupação, marcada por disputas fundiárias, conflitos com populações indígenas e pela expansão da pecuária extensiva. As razões exatas que motivaram a migração permanecem envoltas em incertezas, mas a tradição familiar sustenta que teriam deixado os Açores para escapar à vigilância da Inquisição. Inicialmente buscaram abrigo junto a parentes em Pernambuco, que, receosos de possíveis represálias, encaminharam-nos para o interior da capitania, onde se estabeleceram na Fazenda Preás, nas serras de Parelhas, em território hoje potiguar.
Durante o período em que residiram nos Preás, Rodrigo e Sebastião dedicaram-se a atividades de natureza jurídica, sobretudo relacionadas à regularização e ao trato de questões de terras, valendo-se de sua condição de homens letrados, ainda rara no sertão daquele tempo. Tal atuação conferiu-lhes certo prestígio local, mas também os inseriu em contendas sensíveis. Nesse contexto, receberam convite do capitão-mor Geraldo Ferreira das Neves Sobrinho para comparecerem à Fazenda Picotes, em Santa Luzia, a fim de assessorá-lo em uma disputa fundiária. Informados, porém, de que a missão exigiria deslocamento até a ribeira do Piancó, região considerada perigosa em virtude de frequentes levantes indígenas, recusaram-se a aceitá-la, o que provocou a reação irada da autoridade militar.
Diante da recusa, o capitão-mor informou-lhes da existência de um mandado judicial que determinava a prisão de dois fugitivos da Justiça cujas descrições coincidiam com as dos irmãos Medeiros, colocando-os em situação delicada. A solução apresentada foi estratégica e inesperada: ambos deveriam casar-se com duas de suas sobrinhas, integrando-se definitivamente à ordem local e dissipando as suspeitas que recaíam sobre eles. Assim, Rodrigo contraiu matrimônio com Apolônia Barbosa de Araújo, enquanto Sebastião uniu-se a Antônia de Morais Valcácer, estabelecendo-se, desse modo, as bases sólidas da família Medeiros no sertão do Seridó.
A tradição descreve Sebastião como homem alto, magro, de pernas finas, tez morena e queixo grande e proeminente, enquanto Rodrigo era de elevada estatura, corpulento e de cabelos alourados. Rodrigo passou a residir na fazenda Pocinhos, situada na ribeira do Quipauá, no atual município de São José do Sabugi. Do casamento com Apolônia Barbosa de Araújo nasceram quatro filhos: Manoel de Medeiros Rocha, Antônio de Medeiros Rocha, Francisco Freire de Medeiros e José Barbosa de Medeiros, descendência que daria continuidade à presença e à influência da família na região. Rodrigo faleceu em 1757, ano em que foi processado seu inventário, cujos autos se encontram arquivados no Primeiro Cartório Judiciário de Caicó, documento de grande relevância para a compreensão de seu patrimônio e de sua inserção social. Consta desses autos que Sebastião de Medeiros Matos foi nomeado tutor dos sobrinhos menores.
Após a morte do marido, Apolônia Barbosa de Araújo permaneceu viúva por longos anos. Registros paroquiais indicam que, em 1790, residia no Riacho de Fora, propriedade pertencente a filhos seus, e que, em 1794, vivia na Fazenda do Remédio, na companhia do filho caçula, Manoel de Medeiros Rocha. Seu falecimento ocorreu em 28 de novembro de 1802, na referida fazenda, conforme assento lavrado pelo cura do Seridó, Francisco de Brito Guerra, no qual se registra que Apolônia Barbosa, viúva de Rodrigo de Medeiros Rocha, faleceu com todos os sacramentos, aos oitenta e oito anos de idade, sendo sepultada no mesmo dia na Capela de Acari, das grades do arco para cima, envolta em hábito do Carmo, e encomendada pelo reverendo capelão José Antônio Caetano de Mesquita.
Manoel de Medeiros Rocha, filho do casal, nasceu entre os anos de 1752 e 1757. Contraiu matrimônio com Ana de Araújo Pereira, filha de Antônio Pais de Bulhões, e estabeleceu-se definitivamente na Fazenda do Remédio, herdada do sogro. Homem de grande projeção regional, destacou-se tanto no plano administrativo quanto no político, vindo a ocupar o posto de capitão-mor após o falecimento de Cipriano Lopes Galvão. Em reconhecimento à sua liderança, foi eleito, em 3 de dezembro de 1821, membro da Junta Governativa da Província do Rio Grande do Norte, participando de um dos momentos decisivos da história política provincial. Faleceu em 8 de fevereiro de 1837, estando os inventários de seus bens e os de sua esposa arquivados no Primeiro Cartório Judiciário da Comarca de Acari, sob os números 53, de 1839, e 45, de 1835, respectivamente, documentos que atestam a solidez patrimonial da família.
Após sua morte, a Fazenda do Remédio passou sucessivamente a seu filho Luís Geraldo de Medeiros, depois a Berto Medeiros e, posteriormente, a Joaquim José de Medeiros, mantendo-se como herança contínua ao longo das gerações. No início do século XX, a antiga propriedade voltou a assumir papel central na história regional. Em 1910, durante a presidência de Nilo Peçanha, iniciaram-se os estudos para a construção de um açude que daria origem ao núcleo urbano de Cruzeta. A implantação do reservatório exigiu a desapropriação de extensas áreas, processo que contou com o apoio decisivo de Joaquim José de Medeiros, então proprietário da fazenda. Demonstrando espírito público, propôs à prefeitura de Acari, município ao qual a localidade pertencia, a fundação de um povoado, comprometendo-se a doar terras destinadas à edificação de moradias e de uma capela.
O povoado de Cruzeta foi oficialmente fundado em 24 de outubro de 1920, consolidando-se como núcleo habitacional permanente. Em 1937, foi elevado à categoria de vila e, no ano seguinte, com a conclusão das obras do açude, tornou-se distrito de Acari. Finalmente, em 25 de novembro de 1953, alcançou sua emancipação política, passando à condição de município autônomo, coroando um processo histórico iniciado ainda no período colonial, nas antigas sesmarias e fazendas do sertão.
A linhagem de Joaquim José de Medeiros prolongou-se ao longo do século XX. Ele foi pai de Manoel Inácio de Medeiros, que, por sua vez, gerou Manoel Maurício de Medeiros, conhecido como Medeirinho. Este exerceu papel de destaque na vida política de Cruzeta, tendo sido prefeito do município em dois mandatos, de 1983 a 1988 e de 1993 a 1996. Casado com Marluce Monteiro de Medeiros, foi pai de cinco filhos — Mauricéa, Joaquim José de Medeiros, Maria Rosa, Paula Marilene e Ana Eloiza —, perpetuando uma trajetória familiar que atravessa mais de três séculos e se confunde, de modo indissociável, com a própria formação histórica, social e política do Seridó potiguar.
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O Coronel de Milícias Cipriano Lopes Galvão, natural de Igaraçu, em Pernambuco, era filho legítimo de Cipriano Lopes Pimentel e de Teresa da Silva. Já maior de idade, no ano de 1721, exerceu a função de testamenteiro e inventariante dos bens deixados por seu pai, cujo inventário foi processado em Goianinha, então pertencente à Capitania do Rio Grande do Norte. Contraiu matrimônio em sua terra natal com Adriana de Holanda e Vasconcelos, filha de João da Rocha Moura e de Maria Madalena de Vasconcelos.
Segundo a tradição familiar, Cipriano Lopes Galvão foi o primeiro coronel do Regimento de Cavalaria da Ribeira do Seridó e adquiriu, no ano de 1755, a sesmaria denominada Totoró, onde se estabeleceu com fazenda de criação de gado. Possuiu ainda, na Serra de Santana, aviamento destinado ao fabrico de farinha de mandioca. Já se encontrava falecido em 5 de março de 1764, fato comprovado pelas petições em que sua esposa, Dona Adriana, requeria novas terras ao governo do Rio Grande do Norte, declarando-se viúva do coronel Cipriano Lopes Galvão.
Em abril e maio de 1764, Dona Adriana de Holanda e Vasconcelos recebeu duas sesmarias de três léguas de comprimento por uma de largura, na forma da legislação vigente. A primeira confinava com o sítio de criação de gado no Totoró e localizava-se na serra que ela afirmava ter descoberto por intermédio de seus escravos, descrita como própria para o cultivo de roças, embora desprovida de água corrente ou vertente, sendo, portanto, inútil para a pastorícia. A segunda abrangia sobras de terras na mesma serra, estendendo-se em parte para o Açu e em parte para o Seridó; esta, contudo, não foi confirmada pelo Rei de Portugal, tendo sido posteriormente requerida e obtida, em 1804, pelo Tenente-Coronel Francisco de Souza e Oliveira.
Conforme informa Câmara Cascudo, Dona Adriana foi a primeira proprietária da área que viria a constituir o futuro Cerro Corá, então descrito como região habitada por onças e caititus. Ainda segundo o mesmo autor, ela doou a serra à invocação de Senhora Santana, razão pela qual passou a ser conhecida como Serra de Santana ou Serra do Patrimônio.
Após a morte do coronel Cipriano Lopes Galvão, Dona Adriana contraiu segundas núpcias com o fazendeiro Félix Gomes, igualmente estabelecido no Seridó. Enviuvando novamente, casou-se, em terceiro matrimônio, com o coronel Antônio da Silva e Souza, que viria a ser o primeiro presidente da Câmara da Vila Nova do Príncipe, atual Caicó, por ocasião da criação do município em 31 de julho de 1788. A respeito de Félix Gomes, registra Câmara Cascudo tratar-se de um fazendeiro de grande fortuna, a quem se atribuía a tradição de haver enterrado vultosas quantias de ouro em suas propriedades.
O termo de óbito do coronel Antônio da Silva e Souza, terceiro marido de Dona Adriana, encontra-se registrado em livro da antiga freguesia da Senhora Santana do Seridó. Nele consta que faleceu em 5 de junho de 1819, na Vila do Príncipe, vítima de indigestão, com todos os sacramentos, contando setenta e tantos anos de idade, sendo sepultado na matriz local, do cruzeiro para cima, com as devidas cerimônias religiosas. Antônio da Silva e Souza era natural da freguesia de Santo Tirso, do Bispado do Porto, em Portugal, filho legítimo de João da Silva Jaques e de Margarida Dias Fernandes, não tendo havido descendência de seu casamento com Dona Adriana.
No acervo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, arquivados na pasta número quarenta e seis, encontram-se os autos de demarcação da data do Totoró, realizados no ano de 1763. Dona Adriana de Holanda e Vasconcelos faleceu em 19 de março de 1793, conforme assentamento registrado nos livros da antiga freguesia do Seridó, no qual se consigna que foi sepultada na Capela de Nossa Senhora da Guia do Acari, filial da matriz, envolta em hábito de São Francisco, com todos os sacramentos, contando cerca de setenta anos de idade.
Do matrimônio celebrado entre o coronel de milícias Cipriano Lopes Galvão e Adriana de Holanda e Vasconcelos resultou numerosa descendência, composta por filhos e netos que desempenharam papel relevante na ocupação territorial, na vida econômica e na formação social do Seridó.
Entre os filhos do casal destacou-se Francisca Xavier de Moura, nascida por volta de 1748 ou 1749, que contraiu matrimônio com José de Freitas Leitão. Seu falecimento ocorreu em 11 de junho de 1789, conforme assento lavrado na Capela do Acari, filial da Matriz de Santa Ana do Seridó, onde recebeu sepultura eclesiástica, envolta em hábito de São Francisco, falecida aos quarenta anos de idade, pouco mais ou menos, sem sacramentos por acidente.
Do casal José de Freitas Leitão e Francisca Xavier de Moura descenderam, entre outros, Joana Francisca da Conceição, que se casou com João Lopes Galvão, filho legítimo de Cipriano Lopes Galvão, o segundo do nome, e de Vicência Lins de Vasconcelos, casamento celebrado após dispensa canônica do parentesco e dos banhos, na Capela de Nossa Senhora da Guia do Acari, no ano de 1800. Outra filha foi Maria Francisca de Moura, que desposou Sebastião Lopes Galvão, igualmente filho de Cipriano Lopes Galvão e Vicência Lins de Vasconcelos, em cerimônia realizada na Fazenda Mulungu, no ano de 1803, após dispensa no segundo grau de consanguinidade. Sebastião Lopes Galvão veio a falecer em 23 de setembro de 1846, sendo sepultado na Capela de Currais Novos, com sessenta e quatro anos de idade, vítima de estupor, recebendo o sacramento da extrema-unção.
Outro descendente foi Gonçalo de Freitas Galvão, que contraiu matrimônio com Maria Manoela de Vasconcelos, filha legítima do capitão-mor Cipriano Lopes Galvão e de Vicência Lins de Vasconcelos. O casamento realizou-se em 12 de janeiro de 1809, na Fazenda do Totoró, após dispensa de consanguinidade, com bênçãos concedidas dentro da missa.
Entre os filhos diretos de Cipriano Lopes Galvão e Adriana de Holanda destacou-se Cipriano Lopes Galvão, o segundo do nome, nascido segundo a tradição familiar em 1750, que se casou com Vicência Lins de Vasconcelos, filha de Francisco Cardoso dos Santos e Teresa Lins de Vasconcelos. Faleceu em 13 de dezembro de 1813, com sessenta anos de idade, deixando testamento, sendo sepultado na Capela de Santa Ana dos Currais Novos, por ele fundada. Sua viúva faleceu em 23 de dezembro de 1827, com setenta e tantos anos, recebendo sepultura no mesmo templo.
Esse segundo Cipriano Lopes Galvão sucedeu ao pai na posse da fazenda do Totoró e obteve sesmaria na região dos Currais Novos, onde estabeleceu nova fazenda de criação de gado, origem da atual cidade homônima. Foi o responsável pela edificação da capela dedicada a Santa Ana, erigida em 1808, mediante provisão episcopal concedida em Olinda. Encontra-se arquivada escritura de doação de meia légua de terras para patrimônio da referida capela, lavrada em 5 de janeiro de 1808, assim como a provisão oficial para sua ereção.
Entre os filhos de Cipriano Lopes Galvão, o segundo, figuram José Lopes Galvão, casado com Josefa Maria da Conceição; Ana de Jesus, que contraiu matrimônio com seu tio paterno Félix Gomes Pequeno; Cipriano Lopes Galvão Júnior, conhecido por Ciprianinho, que se casou com Teresa Maria José, filha de José Bezerra de Menezes e Maria Borges do Sacramento, falecendo em 1809, vítima de bexigas, sem receber os sacramentos; Vicência Lins de Vasconcelos, que se casou com Francisco Januário de Vasconcelos Galvão; Sebastião Lopes Galvão, marido de Maria Francisca de Moura; Francisco Lopes Galvão, que desposou Ana Joaquina de Vasconcelos; Maria Manoela de Vasconcelos, esposa de Gonçalo de Freitas Galvão; Adriana de Holanda e Vasconcelos, casada com Alexandre de Melo de Andrade; Manoel Lopes Galvão, unido a Ana de Araújo Pereira; Antônio Pio Galvão, que contraiu matrimônio com Adriana Lins de Vasconcelos; Gonçalo Lopes Galvão, esposo de Ana Maria do Rosário; Joaquim Lopes Galvão, casado com Maria José da Conceição; além de Teresa, falecida solteira.
Do terceiro matrimônio de Adriana de Holanda e Vasconcelos com Félix Gomes Pequeno descenderam ainda Félix Gomes Pequeno Júnior, que se casou com Rita Maria de Jesus, falecendo em 1842; Manoel Lopes Pequeno, marido de Ana Maria da Circuncisão; José Lopes Pequeno, casado com Maria do Ó; Cipriano; Alexandre; e Vicência, cujos registros de batismo constam nos livros paroquiais da freguesia do Seridó.
Essa extensa descendência evidencia a centralidade do tronco formado por Cipriano Lopes Galvão e Adriana de Holanda e Vasconcelos na história genealógica do Seridó, tendo seus descendentes participado ativamente da formação de núcleos populacionais, da expansão da pecuária, da organização religiosa e da constituição de famílias que ainda hoje se encontram amplamente representadas na região.

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